A Nova Economia e a Pedra Filosofal

José Armando Bueno de Almeida

Um exército de excluídos da Nova Economia tenta reviver o princípio da Pedra Filosofal, ao querer ser transformados em empreendedores. A realidade é bem outra, pois empreendedores não nascem em cachos e o mercado vai punir cada vez mais a aventura e a falta de preparo na criação de empresas.

O empreendedorismo vem sistematicamente ocupando a mídia como tema central do desenvolvimento econômico, especialmente por apresentar-se como a solução viável para a crescente crise do emprego e das relações de trabalho tradicionais. Esta visão salvadora, por vezes exagerada ou equivocada, procura transformar o empreendedorismo no salve-se quem puder da nova economia, na tábua de salvação dos excluídos. Aí é que mora o perigo. A iniciativa de trabalhar "por conta", ou seja, por conta própria, sem patrão e sem cartão, é em certa medida a única ou última alternativa para um número crescente de pessoas. Entretanto, querer que esse exército de excluídos seja transformado em empreendedores, é acreditar que Papai Noel existe.

Os empreendedores são reconhecidamente pessoas especiais, diferentes, que enxergam oportunidades aonde outros só visualizam dificuldades, correm riscos calculados, têm visões e metas, sabem o que querem, tomam iniciativas, desenvolvem estratégias e planejam suas ações, são persistentes e muito comprometidos e conseguem mobilizar pessoas e recursos em função dos seus objetivos. Os empreendedores transformam a realidade das localidades em que atuam, são geradores de riqueza, são multiplicadores do sucesso. Querer transformar pessoas comuns em empreendedores - e aqui não vai nenhum juízo sobre o valor humano -, é o mesmo que tentar reviver e aplicar os desafios da pedra filosofal à massa de pessoas que desejam ter um negócio próprio, como num átimo.

Um estudo recente elaborado pelo Babson College e pela London Business School, e que amparou reportagem de capa da revista Veja (edição 1.705), avaliou 21 países para identificar os povos mais empreendedores do planeta. O Brasil ficou em primeiro lugar na lista, pela constatação de que um em cada oito brasileiros monta um negócio próprio. Os Estados Unidos, segundo colocado, tem a proporção de um para dez.

Ora, para ser empreendedor não basta "simplesmente" montar um negócio. Aliás, o mais fácil é de fato montar um negócio. Duro mesmo é mantê-lo, sobreviver à competição, torná-lo rentável e aí alcançar o sucesso. No Brasil, pesquisas em diferentes regiões apontam que a mortalidade de empresas já atinge taxas de 60% a 80% no primeiro ano de vida, ou seja, de cada dez empresas, de seis a oito fecham antes de completar um ano de atividade. Isso o Babson College não viu, e nem a Veja olhou. É fácil dourar a pílula.

Esta sanha empreendedora deve crescer muito mais ainda. Atualmente, cerca de 60% da massa de trabalhadores brasileiros tem carteira assinada, e esse número vem caindo. Estudos avaliam que em 2010 menos de 10% dos trabalhadores terão um contrato de trabalho regular. Isso significa dizer que cerca de 80 milhões de pessoas vão estar trabalhando fora do regime comum de emprego, ou seja, sem salário fixo, sem aposentadoria, quase igual "bóia fria". Eles deverão estar servindo ao mercado de trabalho através de contratos temporários, com salários variáveis e pagos por desempenho e resultado e sem qualquer garantia. Esta é a realidade em muitos setores, especialmente o de serviços.

Parte desses milhões de pessoas estarão, forçosamente, tendo que ter uma empresa regular para poder relacionar-se no mercado. Atualmente temos no Brasil cerca de sete milhões de empresas. Este número poderá ser quadruplicado em dez anos, para responder ao novo posicionamento dessa massa de mão-de-obra, ou seja, poderemos ter quase 30 milhões de empresas, sendo a esmagadora maioria microempresas e empresas individuais.

Infelizmente a burocracia estatal e a cartorial estão a impedir a formação de empresas na velocidade que a atualidade exige. Enquanto em inúmeros países abrir uma empresa é uma tarefa para um ou dois dias, no Brasil isso pode levar um mês ou mais, passando por dezenas de guichês, carimbos, registros e uma lista de taxas e tarifas que beira ao assalto.

Como se isso não bastasse, os custos operacionais dos negócios no Brasil são internacionalmente conhecidos e reconhecidamente proibitivos. Os impostos e taxas beiram ao escândalo. Os custos do dinheiro são aviltantes. Esta soma de barreiras e restrições aumenta o risco dos negócios antes mesmo de terem gerado recursos próprios através de operações no mercado. Apenas como exemplo, o Estado de Rondônia, plantado no noroeste brasileiro e nas saias da floresta amazônica, o sistema tributário recém-implantado pelo governo estadual exige o recolhimento antecipado dos impostos, num portal alfandegário na divisa do estado, e na única rodovia de acesso de outras regiões para Rondônia, ou seja, antes de o produto ser recebido por uma empresa, antes mesmo de ser contabilizado no estoque, já pagou impostos. E mais, empresas com débitos, agora têm as suas mercadorias confiscadas até o pagamento das dívidas. Não é fácil.

E apesar desse cenário, parece não existir alternativa, exceto entrar para a economia informal, um sistema econômico livre que no Brasil já conta com cerca de 12 milhões de pessoas. Este outro exército é formado em boa parte por vendedores ambulantes que oferecem de tudo o que se possa imaginar, e que movimenta alguns bilhões de dólares anualmente.

Enfim, há um nítido divisor que separa os empreendedores, que sabem enfrentar desafios e obstáculos, daqueles que acreditam que ter um negócio próprio é a tábua de salvação da nova economia. Os custos financeiros e sociais de um negócio que não dá certo são absolutamente violentos, e os governos deveriam, mais do que fomentar a criação de empresas e pequenos negócios, alertar e orientar para os enormes riscos em que pode se transformar a abertura de uma empresa. Cada vez mais o mercado vai punir a aventura e a falta de preparo.

 

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