Porque EUA "rasgaram" os acordos internacionais?

A direita norte-americana abrigada no governo de George W. Bush há tempos vem dando sinais de sua tendência isolacionista e arrogante em relação ao mundo. O último exemplo disso veio na recente conferência sobre racismo patrocinada pela ONU na África do Sul. A discussão sobre o sionismo ser ou não uma forma de racismo e a exigência de alguns países por reparações causadas pelo tráfico de escravos fez o país cancelar sua participação, embora tenha o primeiro secretário de Estado negro de sua história, Colin Powell, que deveria ser uma das estrelas do evento. Aliás, a imprensa norte-americana comentou que o general queria muito ir à conferência.

Antes disso, em julho, os EUA praticamente determinaram o fracasso do Protocolo do Kyoto, que trata das providências de países de todo o mundo para tentar reduzir a emissão de poluentes, para conter o aquecimento global, ao se negar a cumprir suas exigências, durante um encontro internacional em Berlim, mais ou menos na mesma época da última reunião do G-7 em Gênova, na Itália. Ainda que o tal Protocolo traga incoerências, o problema não está no seu conteúdo, mas na maneira prepotente como foi descartada.

Apesar de ser o país que mais emite poluentes no mundo, os EUA negaram-se a seguir as determinações do Protocolo, sob alegação de que prejudicavam a indústria do país e exigiriam uma economia de energia muito grande. Mas não apresentaram nenhuma proposta alternativa. O secretário Colin Powell chegou a prometer que um plano alternativo seria apresentado na próxima conferência sobre o Protocolo no Marrocos, em outubro. Mas a assessora nacional de segurança, Condoleezza Rice, disse que o país não trabalha com esse prazo. O Protocolo acabou salvo por um acordo entre Alemanha e Japão.

A lista de tratados internacionais ignorados pelos EUA na era Bush  é grande. O país que bombardeia regularmente o Iraque como forma de pressionar o governo de Saddam Hussein a aceitar inspeções de armas químicas e biológicas é o mesmo que mandou por água abaixo um tratado internacional de 1972 que visa a banir as armas químicas, ao não assinar resoluções negociadas por oito anos e aceitas por todos os outros países e declará-las impossíveis de ser implementadas. Detalhe: o acordo fora assinado por Richard Nixon, um republicano cujas credenciais conservadoras nunca foram postas em dúvida.

Segundo reportagem recente do site Salon.com, os EUA também não assinaram a Convenção Internacional sobre a Lei do Mar e o Tratado Internacional sobre Minas Terrestres. E o governo assinou, mas o Congresso não ratificou, o Tratado Antitestes Nucleares e protocolos da ONU que combatem a pornografia infantil e o uso de crianças em exércitos.

Em meados de julho, os EUA também desempenharam um papelão numa conferência da ONU que discutia maneiras de combater o tráfico de armas leves. O texto final do acordo tem uma emenda de autoria de John Bolton, subsecretário de Estado para controle de armas e assuntos internacionais de segurança, garantindo que os países podem vender armas para "aqueles que lutam pela liberdade" e contra "regimes opressores".

Como nota o mesmo Salon.com, não é preciso um exercício de retórica muito grande para incluir nessa definição as atividades terroristas de Osama bin Laden e dos grupos extremistas Hamas e Jihad. Não admira que Israel não tenha aceitado o texto final do encontro. "Traz algum conforto o fato de que aparentemente existe um único lobby capaz de bater o poderoso American Israel Political Action Committee - mesmo que tenha que ser a National Riffle Association", comenta ironicamente o site, referindo-se ao poderoso lobby dos fabricantes de armas, que tem o ator Charlton Heston como garoto-propaganda.

Bush também tenta se esquivar do acordo que cria a Corte Criminal Internacional, assinado por Bill Clinton em seus últimos dias no cargo. Os EUA foram dos poucos países que haviam se negado a assinar o acordo, junto a... China, Iraque e Sudão.

Sem falar, é claro, do Tratado de Mísseis Antibalísticos, também de 1972, que os EUA assinaram e ratificaram, mas estão deliberadamente rasgando com a proposta de construir o seu Escudo Antimísseis. Bush vende o projeto de US$ 300 bilhões como a melhor maneira de retomar os investimentos em tecnologia que ajudariam a tirar a economia do país da crise. Mas muitos economistas e acadêmicos acreditam que, no campo puramente econômico, o único efeito do escudo seria o de reintroduzir o déficit no cenário fiscal do país.

Em sua defesa, a Casa Branca tem dito que não se tornou unilateralista ou isolacionista, mas apenas mais seletiva. O diretor de planejamento político do Departamento de Estado chegou a cunhar a expressão "multilateralismo à lá carte" para descrever a política do governo Bush sobre ações internacionais coordenadas com vários países. "Vamos examinar cada acordo e tomar uma decisão, ao invés de criar uma regra genérica", disse.

"Para o governo Bush, ser o líder mundial significa ser capaz de fazer o que quiser quando quiser, sem restrições de tratados ou acordos multilaterais que possam limitar o consumo de recursos naturais, o poder militar ou insanas leis sobre posse de armas", escreveu, no dia 31 de julho, Thomas Friedman, respeitado articulista do jornal The New York Times. "Os EUA são descritos como um 'estado delinqüente' na Europa, quase tanto quanto o Iraque", acrescenta Friedman.

 

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