Economistas dizem que os atentados já empurraram o mundo para uma recessão
(UOL Economia, 2001-09-15)

A tragédia do World Trade Center pode ter sido o empurrão que faltava para jogar os EUA e, por extensão, o mundo, numa grave crise mundial. Economistas de grandes bancos já calculam que os atentados em Nova York e Washington podem custar nada menos que três pontos percentuais do PIB no terceiro e no quarto trimestres à economia norte-americana. "Não precisamos mais discutir se os EUA estão em recessão", disse Norbert Walter, economista-chefe do Deutsche Bank, em Frankfurt. "Nós estamos".

Como lembra o The Wall Street Journal, um dos maiores danos à economia dos EUA é estrutural: as duas torres do World Trade Center, totalmente destruídas nos atentados, eram a sede de dezenas de empresas, como bancos, corretoras de seguro e de investimentos do mundo todo. Só o banco Morgan Stanley Dean Witter, um dos mais importantes do país, tinha 3,5 mil funcionários nos prédios. Entre os milhares de pessoas mortas estão executivos, operadoras e analistas que representam décadas de experiência em negócios internacionais.

Uma das maiores preocupações dos analistas e economistas é com o impacto que os ataques terão no comportamento dos consumidores norte-americanos, que têm sido, desde o início da crise econômica, o esteio da atividade econômica do país, depois que as empresas cortaram seus investimentos em tecnologia. "Eventos que abalam a confiança do consumidor normalmente têm um efeito negativo transitório nos gastos do consumidor. Mas nunca vimos nada como isso agora", disse ao Journal Alan Blinder, professor de economia da universidade de Princeton.

O problema é que apenas alguns dias de parada no consumo já causam grandes prejuízos econômicos. Quatro dias de consumo estagnado no país todo poderiam cortar 1% de redução no crescimento econômico, calcula um economista da corretora Merrill Lynch em Londres.

O Credit Suisse First Boston acredita que a atividade econômica em Nova York e Washington vai despencar em 50% nas últimas semanas do terceiro trimestre e 20% durante o quarto trimestre.

Em termos de impacto econômico e choque emocional, o mais próximo que alguns conseguiram chegar dos atentados desta semana foram o terremoto de 1923 em Tóquio ou a própria Guerra do Golfo em 1990-91. Mas, segundo o Journal, nem isso é comparável à extensão dos últimos ataques.

A Guerra do Golfo também fez disparar os preços do petróleo, derrubou a confiança e foi um evento decisivo para consolidar a recessão que se seguiu em 1991 e 1992. Mas a profundidade dos eventos desta semana é maior. Em 1990, por exemplo, o medo de atentados durante a guerra fez cair o número de viagens aéreas. Desta vez, no entanto, não foram temores ou ameaças, mas ataques reais que pararam todo o sistema aéreo por mais de dois dias.

O setor aéreo, aliás, é um dos mais atingidos. A Associação de Transporte Aéreo Internacional (Iata, em inglês) estima que os custos e prejuízos desta semana somam US$ 10 bilhões no mundo todo. O mercado de aviação norte-americano é avaliado em cerca de US$ 1 bilhão por dia, segundo a Iata. E a desaceleração nos mercados canadense e mexicano, além do tráfego transpacífico e transatlântico, também deve ser levada em conta.

A agência de avaliação de risco Standard & Poor´s colocou o rating das empresas aéreas norte-americanas em revisão para um possível rebaixamento. O mesmo aconteceu com a Air Canada e a British Airways. O motivo da revisão são as perdas substancias em movimento com a suspensão dos vôos nos Estados Unidos.

A analista Virginie Casin, da S & P, disse que a indústria da aviação não enfrentava uma situação similar há uma década. Segundo ele, a possibilidade de que os eventos recentes possam afastar passageiros elevar os preços dos combustíveis podem pressionar os rendimentos e encargos das dívidas das empresas.

As economias asiáticas também estão entre as primeiras vítimas da tragédia, já que contavam com uma recuperação da economia norte-americana a partir do fim de 2001. Afinal, estes países recuperaram-se da crise da Ásia, de 1997-98, basicamente exportando produtos de alta tecnologia em grande quantidade para os EUA.

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