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Estudo revela mudanças no mercado de trabalho na América Latina.
(Carreira & Sucesso, 2002-02-25)

Um estudo realizado pelo pesquisador chileno Fernando Vigorena, datado de 31 de dezembro de 2001, mostra que o perfil do trabalhador latino-americano, hoje, está bem diferente do que era há 20 anos. Pesquisador da Universidad Autônoma Del Sur, Vigorena coletou informações sobre o mercado de trabalho desde 1982, e chegou a pelo menos duas conclusões importantes: o emprego fixo, registrado em carteira profissional, vem sendo substituído pelo trabalho de curto prazo, em que as habilidades do trabalhador são o que mais pesa; e que a tendência internacional é terceirizar a maior quantidade possível de funções, desde a venda até a fabricação dos produtos.

"No princípio do século XXI, menos da metade das pessoas que compõem a força de trabalho no mundo industrial terão emprego", afirmou Charles Handly, um dos maiores pensadores sociais contemporâneos. Fernando Vigorena assume para si a frase, antecipando que os empregos fixos, remunerados, de longo prazo, estão sendo substituídos pelo trabalho temporário. E acha que não adianta esperar que o crescimento econômico retorne para reduzir a taxa de desocupação porque a sociedade do conhecimento vai dar menos empregos do que a sociedade industrial. Agora, diferentemente, serão necessárias pessoas que sejam capazes de aplicar suas habilidades de modo a encontrar ocupações de curto prazo e mais bem remuneradas. 

Vigorena sustenta com estatísticas a sua tese: na América Latina, a rotatividade nos cargos tem aumentado drasticamente. "Se em 1982 os serviços temporários respondiam por poucas substituições, principalmente em funções de secretaria e similares, transcorridos 20 anos já são cerca de dois milhões de pessoas por mês, no continente americano, em todos os níveis, trabalhando em regime temporário."

E o fenômeno não ocorre somente no setor privado, segundo Vigorena, que informa que o setor público aumentou em mais de 500% as contratações temporárias no mesmo período de tempo. Isto se deve à terceirização, no Brasil, por exemplo, estimulado pela lei das Licitações (lei 8.666), que leva muitas empresas estatais do México, Venezuela e Brasil a terem quase a metade do seu pessoal como subcontratados de consultorias externas.
"Mas ainda que o emprego esteja sendo reduzido aritmeticamente, o trabalho flexível aumenta geometricamente", diz o pesquisador. Isto porque os empresários criaram novas organizações de serviços, educação, comércio, finanças, Internet e outras, que vêm absorvendo as pessoas desvinculadas por força da terceirização. "O trunfo dos empresários é que, desta forma, os custos fixos se transformam em variáveis, de acordo com os projetos", afirma. "Sabemos", ele continua, "que o emprego foi uma figura criada pela sociedade industrial, grande consumidora de mão-de-obra. Mas a atual sociedade do conhecimento não requer grande quantidade de empregos, embora continue necessitando de um grande número de trabalhadores."
A tendência, segundo o pesquisador, foi resultado do aumento dos custos sociais de cada empregado, frente a um mercado de usuários que deseja produtos mais baratos mas ao mesmo tempo com melhor serviço.


O Caminho da nova empresa

As empresas, assegura o especialista, experimentaram mudanças nos últimos tempos: perto de 50% delas reduziram pessoal para a metade, contrataram pessoal de salários mais baixos e trocaram o pessoal que executava trabalhos rotineiros pelas tecnologias de computador, como o software de gestão, subcontrataram funções nos setores de serviços, produção e vendas, e ainda preferem profissionais com idade abaixo dos 45 anos, porque estes são muito caros.
"As fábricas estão agonizando, porque as indústrias hoje não fabricam mais. Na sua maioria apenas montam, com produção terceirizada e pulverizada. Em suma, apenas têm clientes", sintetiza Vigorena, enquanto lembra a Benetton como exemplo – é a maior empresa têxtil do mundo, mas não fabrica nem vende nada: terceiriza ambos os serviços.
Dentro deste conceito, diz Vigoreza, as empresas requerem profissionais que solucionem problemas, que agreguem valor, que sejam capazes de inovar para satisfazer um mercado repleto de bons produtos, baratos, de boa qualidade e abundantes. "A idéia, então, é melhorar o profissional, administrando a carreira como se fosse ele mesmo uma empresa", completa.
As três características do novo trabalhador, segundo Vigorena, são:
- ser, ao mesmo tempo, empregável e descartável
- ter mentalidade de empresário independente
- ter um alto grau de flexibilidade

Mas para conseguir que os profissionais se tornem flexíveis é imprescindível modernizar as leis trabalhistas, fomentar o capital de risco, gerar novas oportunidades a uma geração de empresários que assuma riscos e substituir a solução de pagamento de dívidas pela de negócios sustentáveis.
"Mas, infelizmente, as medidas até agora adotadas são como procurar reduzir o alcoolismo diminuindo o tamanho da garrafa."

Profissões mais procuradas

Fernando Vigorena, a partir dos dados da pesquisa, fez uma seleção das especialidades que atualmente têm encontrado trabalho mais facilmente.

Em empresas públicas: psicólogos do trabalho e clínicos, sociólogos, professores e educadores, especialistas em treinamento, assistentes sociais, advogados, arquitetos, construtores civis, médicos, profissionais em atividades sociais, culturais e desportivas, enfermeiros, engenheiros especializados em projetos e profissionais da área de recursos humanos

Em empresas privadas: engenheiros de vendas, engenheiros civis, engenheiros e técnicos das áreas de sistemas, Internet, telecomunicações, psicólogos, vendedores e assistentes sociais

Carreiras de futuro

Entre as principais oportunidades de carreira, o acadêmico menciona:

Tecnologia – âmbito que deve ser dominado também por advogados e especialistas em marketing

Biotecnologia – porque a saúde ganha importância em razão do envelhecimento da população, das pressões por redução de custos e melhor capacitação administrativa, além da necessidade de novos serviços médicos e assistenciais

Educação – especialmente em razão de iniciativas de educação a distância, com formação em matemática, ciências e comunicação, principalmente se forem criativos e se apresentarem facilidade para a aplicação de novos métodos de aprendizagem

Consultoria administrativa – aconselhamento de carreira, recursos humanos, planejamento estratégico, treinamento etc

Serviços de conveniência – organizadores profissionais, cuidado com crianças e adultos, transporte, cuidados médicos para a terceira idade etc

Entretenimento – hotelaria, turismo e viagens

Finanças – especialistas em fusões, aquisições, mercados globalizados e abertura de mercado

Carreiras em queda livre

Também de acordo com os dados da pesquisa, Vigorena considera que entre as carreiras que não vão se recuperar estão:

Cargos na área industrial: no exemplo utilizado por ele, a cada quatro chilenos, três trabalham em serviços e comércio, e apenas um está na indústria

Construção civil: onde os postos de trabalho estão sendo substituídos por tecnologia

Intermediadores: como corretores de imóveis, corretores de bolsas etc

Empregos agrícolas

 

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Fonte: O jornal Carreira & Sucesso

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