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Hoje a Argentina é o país que não existe
(Redação, 2002-04-08)

O presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, disse que o país terá de se reindustrializar se quiser voltar a crescer. "A única possibilidade que temos de sair desta depressão tão profunda em que vivemos é investindo na reindustrialização do país e no fomento de todas as atividades produtivas", declarou Duhalde, durante ato de lançamento de um novo automóvel da General Motors. 

Hoje a Argentina é o país que não existe, frase de Alain Touraine, cientista político. "Deixou de existir, quando deixou de se preocupar com a produção. Na América Latina, para Touraine, só se salvam três países: Brasil, Chile e México."A Argentina é um país de consumo, mas não de produção e trabalho". A crise por que passam os argentinos, na sua avaliação, ameaça toda a América Latina, com exceção do Brasil, do México e do Chile. 

"A idéia de que a Argentina não existe é cada vez mais obsessiva. Há manchas negras que se espalham no hemisfério. Às vezes, cobre países, cidade que foram brilhantes e que participaram da vida do mundo. Agora são países sem produção, sem população ativa, sem economia organizada", explicou Touraine, ao comentar o risco de que o que se vê na Argentina se alastre pelo continente. "O que se passa na Argentina deveria impressionar, ainda mais porque não é uma loucura local", afirmou.

O estudioso está certo ao dizer que a Argentina não se preocupou com a economia real e o presidente está certo quando diz que o paíse precisa reindustrializar-se. 

No antigo modelo econômico argentino, o que importava era a percepção que o mercado formava do país. O que decidia a política econômica era o fluxo de capitais. O modelo transformou a Argentina quase em um banco. Bancos vivem de credibilidade. Quando ela acaba, os clientes correm para retirar suas economias, o banco quebra. A Argentina quebrou.

Parece simplória demais essa visão. Mas ela é, em essência, correta. O que ela não descreve é que fez parte do exercício diário da busca da credibilidade adotar uma política que, viu-se, acabou com a economia real. O pretexto era a modernização e a inserção da economia argentina no palco do mundo globalizado. Só que ocorreu o oposto.

O fato é que havia uma contradição insolúvel no modelo: o dólar valia o mesmo que o peso, mas a economia argentina não tinha a mesma produtividade da economia norte-americana. Em resumo, o problema argentino não era financeiro, era e é essencialmente econômico. 

Foi por conta disso que ocorreu um agudo processo de desindustrialização no país. Empresas desapareceram. Empresas foram transferidas para o exterior - para o Brasil, especialmente. A economia argentina foi emagrecendo. Sobraram a agroindústria e o petróleo.

E essa é a essência do problema de Duhalde. Ele foi o consenso possível para administrar a crise. Mas isso não basta. Até porque essa crise não se administra tendo como horizonte apenas o apagar de incêndios aqui e acolá. A Argentina precisa de uma proposta para sair da crise. E não se sai dela - que é política, ética e econômica, antes de ser financeira - sem um novo projeto de crescimento.

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(copyright EconomiaNet, 2002-04-08)

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Salário mínimo perdeu 35% do poder aquisitivo na década de 90
(copyright Investnews, 2002-04-08)

O salário mínimo perdeu em torno de 35% de seu poder aquisitivo durante a década de 90, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no estudo "A situação do trabalho no Brasil" lançado em forma de livro no Rio de Janeiro. O dado foi deflacionado pelo Índice do Custo de Vida (ICV) do Dieese.

Segundo a diretora técnica do Dieese, Suzanna Sochaczewski - que participou da organização de dados para o livro -, o departamento utilizou um índice 100 para o valor real do salário mínimo de 89, que era de R$ 231,86. Em 99, este valor caía para R$ 151,83, cerca de 65,48% do total registrado em 89.

"Durante a década de 90, o mercado de trabalho deteve ganhos de produtividade e de horas extras, mas não de rendimento", disse, explicando que os incrementos foram incorporados ao capital. A pesquisadora admitiu que o aumento no volume de desempregados contribuiu como fator de pressão para que os trabalhadores se sujeitem a salários menores, pelo temor de serem substituídos. 

Outro dado apontado pela pesquisa foi a queda de salário na maioria dos setores por atividade em São Paulo. A região metropolitana foi tomada como parâmetro pelo Dieese. Na década de 90, foram detectadas quedas no salário médio mensal nos setores indústria (16,8%); construção civil (21,5%), comércio (23,7%) e serviços (13,1%). Somente o setor empregados domésticos verificou alta no período, com elevação de 26,1% nos salários.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio mensal familiar do Brasil em 1998 era de R$ 883.

O desemprego no Brasil aumentou em todas as faixas de escolaridade, durante a década de 90. "Em 89, o desemprego total atingia taxa de 8,7%; em 99, este porcentual já era de 19,9%. Tivemos um salto enorme no desemprego na última década", disse a diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Suzanna Sochaczewski.

A pesquisadora explicou que 80% dos dados utilizados pelo estudo são do Dieese. Os dados apontam que, entre os analfabetos, a taxa de desemprego passou de 7% em 89 para 20% em 99. Entre os trabalhadores com ensino fundamental completo, o desemprego subiu de 10% para 22% na última década; já as pessoas com ensino médio completo detinham taxa de desemprego de 9% em 89, subindo para 16% em 99. 

Ela informou que nem mesmo os trabalhadores com superior completo escaparam do desemprego. Neste segmento de escolaridade, a taxa passou de 3,8% em 89 para 8,3% em 99. "Portanto, as pessoas não estão ficando desempregadas por não terem instrução suficiente", afirmou, explicando que esta desculpa não é válida, com base nestes dados.

A taxa de desemprego total do Dieese considera o desemprego aberto - medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, o desemprego pelo desalento (ou a taxa de inatividade do IBGE) e o desemprego oculto por trabalho sazonal precário.

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(copyright Investnews, 2002-04-08)

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