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TV digital vai movimentar US$ 100 bi
(copyright Jornal Valor Econômico)

Um negócio que deve movimentar US$ 100 bilhões em dez anos só na comercialização de receptores de televisão, sem contar os investimentos em infra-estrutura, na implantação de novas indústrias e no desenvolvimento de tecnologia. Esta é a dimensão que se dá ao projeto da TV digital aberta no Brasil que vem sendo conduzido pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com definição prevista para o início do segundo semestre de 2002.

Após o anúncio, serão necessários outros 18 meses até a implantação da TV digital no país. O projeto - chamado modelo de negócio - da TV digital envolve a escolha do padrão tecnológico, a questão da inclusão da população ao novo meio e, principalmente, a consolidação de um pólo de produção de sistemas, aparelhos e componentes para este mercado. Daí a grande movimentação de blocos formados pelos detentores dos padrões de TV digital e as empresas parceiras, na tentativa de ganhar adeptos da sua tecnologia.

O interesse dos principais players pelo mercado brasileiro se justifica pelo seu tamanho. Hoje a TV atinge mais de 90% da população, que possui 54 milhões de receptores. Nós temos mais televisores que a Argentina, Canadá e México juntos. A soma das classes A e B é quase igual à população da Itália, relata Cezar Taurion, diretor da PWC Consulting, justificando o interesse pela TV digital brasileira. Mais: a decisão do país pela tecnologia tende a ser seguida não só pelos integrantes do Mercosul, mas por toda a América do Sul e boa parte da América Central.

A produção de aparelhos de TV digital só se justifica se houver escala. Por isso, são poucos os países fabricantes em todo o mundo. Nós queremos incentivar a transferência de know-how e o desenvolvimento de pesquisas conjuntas do futuro parceiro tecnológico para criar uma indústria forte, afirma Ara Apkar Minassian, superintendente de Comunicação de Massa da Anatel, fazendo referência ao fator contrapartida que deverá ter um peso considerável na escolha do padrão tecnológico.

Os europeus, que desenvolveram o padrão DVB-T, e os norte-americanos, com o ATSC, já sinalizaram que estão dispostos a negociar. Caso o DVB-T seja escolhido, a União Européia promete fomentar programas de pesquisa para o desenvolvimento da web e transferência de tecnologia.

O Brasil pode se tornar fornecedor de aparelhos de TV digital dos Estados Unidos, caso adote o ATSC. A afirmação foi feita à diretoria da Anatel por David Gross, que chefiou uma delegação norte-americana que esteve no país no fim de fevereiro. Atualmente, os Estados Unidos não fabricam receptores digitais. Em compensação, o Brasil teria que pagar royalties pelo uso do ATSC. Só os japoneses, que desenvolveram a tecnologia ISDB, ainda não fizeram sua proposta, acreditando na vantagem do seu padrão frente aos concorrentes.

Na audiência pública realizada em 2001, de um total de 32 sugestões, 12 foram a favor do ISDB. A Associação Brasileira das Empresas de Rádio e Televisão (Abert) foi a principal defensora do padrão japonês, que apresentou melhor resultado nos quesitos alta definição (HDTV - high definition TV) e mobilidade.

Minassian, porém, deixa claro que a adoção da alta definição está condicionada ao modelo de negócio. Afinal, para uma recepção em HDTV são necessários receptores com grandes telas, hoje acessíveis a um segmento muito pequeno da população. Nós não podemos trazer prejuízo para os usuários brasileiros. Atualmente a TV aberta é o principal veículo de comunicação para 95% da população, afirma. Ele lembra, ainda, que a TV digital faz parte da política do governo de universalização das telecomunicações, como o telefone e a internet.

A Anatel está agindo corretamente, não se deixando influenciar pelas pressões das redes de TV e da indústria. A demora em definir qual o padrão tecnológico é positiva porque envolve muitos riscos e oportunidades, resume Marcelo Xavier, sócio-diretor da e-Consulting. Esta cautela evitará que a agência tome uma decisão apenas técnica, como foi no caso da escolha do padrão GSM para as novas bandas de telefonia celular, em que predominou apenas o aspecto técnico, diz, sem considerar critérios envolvendo a cadeia produtiva.

Fazendo uma avaliação das sugestões das 128 entidades que participaram das discussões durante a audiência pública, Minassian afirma que elas se restringiram aos aspectos técnicos, oferecendo poucos subsídios para a elaboração do modelo de negócio e do modelo de transição do sistema analógico para o digital. Agora, a Anatel está debruçada sobre dados referentes à experiência de 12 países com a TV digital, analisando, ainda, as condições socioeconômicas do Brasil para a implantação da nova tecnologia e as propostas de acordos internacionais.

Mudança trará mais interatividade.

A TV digital traz não apenas melhora na qualidade de recepção de imagem e som. Com ela, surgem novas aplicações fundamentadas na alta velocidade de transmissão de dados, no aumento dos canais disponíveis e na possibilidade de interação. O espectador passa a usar a televisão, segundo Cezar Taurion, diretor de estratégias de TI da PWC Consulting, que classifica a interatividade como principal característica da tecnologia.

A combinação de TV digital com as tecnologias IP permite seleção de programação, acesso à web, o t-commerce (shopping on-line) e o t-banking. O processo de digitalização da TV traz uma grande expansão de canais para transmissão, resultando em um número muito acima do que as próprias redes necessitam. Com o aumento dos canais e a possibilidade de interação, as redes de TV perdem a característica da verticalização, com pouca terceirização, para tornarem-se portais de entrada de serviços e aplicações, diz Taurion.

Luiz Celso Machado, diretor de Tecnologia da Sky, afirma que as redes farão um grande esforço para manter o domínio sobre a programação.

Segundo ele, a Rede Globo tem feito testes de aplicações com bons resultados. Para segurar a audiência, as TVs vão precisar saber mais sobre os clientes, com o uso de ferramentas como CRM (Customer Relationship Management), prevê Celso Machado.

Para Paulo Henrique Pichini, diretor da Getronics do Brasil, além de CRM, os distribuidores de conteúdo vão precisar investir também em sistemas de billing. Segundo ele, com a TV digital surgirão serviços extremamente segmentados e pagos.

O mercado da TV digital contará com a participação de players na área de infra-estrutura (operadoras de telefonia e TV a cabo/satélite) e na área de fornecimento de aplicações e conteúdo, como multimídia, telemedicina e e-learning. Com a disponibilidade de canais serão criados nichos para atender ao mercado corporativo, dando oportunidade a desenvolvedores de aplicações , diz Pichini.

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