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Pesquisa revela os valores que norteiam o pensamento dos jovens
(Observatório de Políticas Culturais USP, 2002-08-02)

O Observatório de Políticas Culturais da Universidade de São Paulo (USP) concluiu há pouco uma pesquisa sobre os valores que norteiam o pensamento dos universitários paulistas. O resultado constitui um bom indicador da visão que os jovens têm do País. E não é uma visão confortadora. Um exemplo: convidados a fazer uma lista com os principais problemas que enfrentam, podendo incluir até três alternativas, 44% dos universitários arrolaram o medo da violência que os rodeia, 33% citaram a falta de ética e 22% falaram da dificuldade de identificar valores autênticos. 

O País deve mudar, segundo os jovens. A maioria, porém, não acredita que as mudanças virão pelas mãos dos partidos políticos, nem de instituições como igrejas, sindicatos e Forças Armadas. Os fatores que podem levar a transformações são, nesta ordem: a conscientização dos indíviduos a respeito dos problemas; a organização dos cidadãos em associações; e a ação de instituições científicas e de ensino. 

Em outra avaliação da pesquisa, os jovens demonstram enorme confiança na educação. Parecem seguir uma tendência mundial já observada por vários estudiosos. Num recente debate sobre jovens, promovido pela Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, a socióloga Felícia Madeira disse, em tom de alerta, que o principal recado dos jovens hoje aos governantes é o de mais qualificação, por meio da educação. "O slogan com o qual o Partido Trabalhista britânico venceu as eleições de maio de 1997, após 18 anos de oposição, foi educação, educação, educação", lembrou ela. 

Na opinião de um dos coordenadores da pesquisa realizada pela USP, a professora Maria de Fátima Tálamo, da Escola de Comunicação e Artes (ECA), "isso confere grande responsabilidade aos organismos de ensino e pesquisa". 

Mas o debate sobre o valor do ensino tem um outro lado, menos animador, também revelado pela pesquisa. Ao mesmo que se lançam aos estudos, os jovens percebem que a simples conclusão de um curso superior não é suficiente para alçá-los a uma vida melhor. Dos estudantes ouvidos pela USP, 25% admitiram que sentem angústia pela falta de perspectiva na profissão escolhida. 

Trata-se de um número notável, considerando que a maior parte dos entrevistados estuda em duas das mais respeitáveis escolas do País. 

A pesquisa do Observatório, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), começou no ano passado e envolveu 800 estudantes da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e de uma escola particular de medicina, em Jundiaí, a 60 quilômetros da capital paulista. Os entrevistados estavam na faixa de 18 a 24 anos. 

Para avaliar melhor os resultados dos questionários respondidos por estudantes brasileiros, os pesquisadores também fizeram um estudo comparativo com universitários dos Estados Unidos. As mesmas 66 perguntas feitas no Brasil foram respondidas por 80 alunos da Universidade de Maryland. 

Na comparação, o estudante brasileiro mostrou-se mais cético. Diante de uma pergunta sobre o grau de confiança no futuro, 55% dos americanos disseram que estão "confiantes". Entre os brasileiros, o índice baixou para 29%. 

A respeito da globalização econômica, 36% dos americanos ressaltaram que trará "conseqüências positivas" para seu país. No Brasil só 12% apostaram nisso. A maioria dos estudantes daqui (74%) acha que a derrubada de fronteiras trará resultados negativos e positivos. 

Família - A comparação também colocou em evidência diferenças culturais. Uma das mais visíveis se refere à questão familiar. A desagregação das famílias preocupa 28% dos universitários americanos, despontando em terceiro lugar na lista dos problemas que os preocupam. No Brasil, a questão só aparece em décimo-primeiro lugar na lista das questões mais preocupantes. 

Ao comentar essas diferenças, a professora Maria de Fátima disse que os jovens pesquisados no Brasil fazem parte de uma elite cultural e econômica e parecem sentir-se bem estruturados em relação à família. "Nos americanos, os sentimentos de carência e de solidão também apareceram de forma mais destacada."

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(Observatório de Políticas Culturais USP, 2002-08-02)

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