» Opinião

As Metamorfoses do Poder
(Ignace de Ramonet, 2002-09-01)

Quem governa o mundo neste fim de milênio? Após o fim da Guerra Fria, não resta mais que uma só grande potência mundial: os Estados Unidos da América (do Norte). Mas qual é sua verdadeira influência em um universo onde a economia dita as leis? Qual é o papel, neste novo contexto, das instâncias de regulação internacionais como a ONU, o Grupo dos Sete Países Mais Industrializados (G7), a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a OMC (Organizaçào Mundial de Comércio) etc? Qual é o verdadeiro papel dos medias (da indústria da informação de massas), dos grupos de pressão (lobbies), das Organizações Não-Governamentais (ONGs)? Por toda parte, tanto nas relações internacionais quanto no seio das sociedades, uma mudança de poder se produziu. Atingindo também o Estado, (como instituição nacional) e outras instituições tradicionais como a escola, a família e a empresa _ que tiveram drasticamente diminuída sua capacidade de intervenção . Nós estamos em um processo de transição de formas autoritárias de poder, hierárquicas e verticais para outras formas: negociadas, circulares, horizontais e mais civilizadas _ mas muito mais complexas. 

Conflitos e Ameaças de Novo Tipo 

Do ponto de vista geopolítico, o mundo parece hoje um grande caos: de um lado, vemos a multiplicação de grandes unidades econômicas regionais (Uniào Européia, Mercosul, Alalc, Alena, Apec etc); de outro, vemos o renascimento de nacionalismos, o ressurgimento de integrismos e fundamentalismos religiosos, vemos Estados divididos e minorias reclamando sua idependência. 

A maioria dos conflitos, neste fim de século, (Algéria, Albânia, Bósnia, Chechênia, Curdistão, Afganistão, México-Chiapas, Sudão, Libéria, Congo-Zaire, Angola, Ruanda etc) são de conflitos internos, intranacionais, que opõem um poder central a uma fração de sua própria população. 

Além disso, as redes mafiosas internacionais e o crime organizado constituem as novas ameaças que controlam toda a sorte de circuitos clandestinos (prostituição, contrabando, tráfico de drogas, venda de armas, disseminação nuclear). Por outro lado, as grandes migrações provocadas pela miséria são percebidas , igualmente, como uma ameaça transfronteiras pelos Estados ricos do Norte. Contra a qual (como contra a poluição atmosfércia ou contra a propagação de doenças novas) as armas tradicionais dos arsenais militares não servem de nada. 

Juntando Desigualdades e Discriminações 

O agravamento das desigualdades entre o Norte e o Sul (hemisférios) tem similaridades no seio dos próprios países desenvolvidos. Ainda que façam parte dos 20% da população do planeta que se beneficiam de 80% dos recursos mundiais, a União Européia conta, porém, com 50 milhões de pobres...O número de desempregados, em l997, já ultrapassava os 20 milhões. O sistema econômico fabrica mais e mais marginalizados, notadamente entre os jovens, as mulheres e os imigrantes. Os estrangeiros são estigmatizados, e os dirigentes da extrema direita atiçam insidiosamente os sentimentos de xenofobia (ódio ao diferente,estrangeiro) de suas próprias populações pobres, confrontadas diariamente com a miséria e o desemprego. Estes problemas, em conjunto, colocam em xeque a própria sociedade liberal, o modelo de sociedade proposto e buscado pelo liberalismo econômico. 

A Mundialização da Economia

Neste fim de século, todos os Estados são prisioneiros de um grande movimento de globalização, que torna as economias dependentes umas das outras. Os mercados financeiros criam uma teia invisível que envolve os países e, ao mesmo tempo, submete e aprisiona os governos. Nenhum Estado, praticamente, pode se isolar do resto do planeta. Quais são as consequências disso para os cidadãos? E para a Democracia?

Os Novos Dirigentes do Mundo

A Terra está novamente disponível para uma nova era de conquistas, como no Século XV. À época da Renascença, os atores principais da expansão conquistadora eram os Impérios-Estados....... Hoje são as grandes empresas e os conglomerados, de grupos industriais e financeiros privados, que tentam dominar o mundo, lançando suas devastadoras políticas de terra arrasada e amealhando um imenso botim. Jamais os poderosos da Terra foram assim tão poucos e tão poderosos... 

O Planeta Saqueado 

Em nome do progresso e do desenvolvimento, o homem engendra, depois da revolução industrial, a destruição sistemática do meio natural. As predações e os saques de todos os gêneros se sucedem, inflingindo aos solos, às águas, à vegetação e à atmosfera da Terra danos enormes. Tudo é atingido. A poluição produz seus efeitos _ o aquecimento do clima, a diminuição da camada de ozônio, as chuvas ácidas que colocam em perigo o futuro do planeta. O produtivismo a todo custo (o aumento da produtividade inclusive) é o primeiro responsável pelo atual saqueamento da Terra. Mas, também, a explosão demográfica do Sul, e a poluição urbana têm sua parte de responsabilidade nisso. 

A extensão dos desastres ecológicos é dos problemas que mais preocupam todos os cidadãos do planeta. O desaparecimento de numerosas espécies da fauna e da flora criam inquietantes desequilíbrios. Proteger a variedade da vida tornou-se imperativo. Já que a riqueza natural é em primeiro lugar sua diversidade. 

As Cidades Destroem a Terra 

Em toda parte, irresistivelmente, a população se concentra em cidades, onde um crescimento desmesurado escapa mais e mais do controle humano. No Norte, como no Sul, essas aglomerações tentaculares afetam gravemente o equilíbrio ecológico, social e econômico, drenando riquezas essenciais, acumuladas por uma minoria de privilegiados contra a massa de excluídos, gerando tensões que um poder, frequentemente pouco democrático, é incapaz de controlar pacificamente. 

As megalópoles do Sul (México, São Paulo, Calcutá, Cairo, Lagos, Shangai) parecem anunciar a decomposição do modelo ocidental de sociedade urbana. Enquanto que, nos subúrbios do Norte, a crise aprisiona em guetos populações sem perspectiva de futuro, que expressam sua desesperança em freqüentes explosões de violência. 

Ciências e Técnicas, Triunfos e Perigos 

Mais de um milhão de satélites circulam em volta da Terra. Esses aparelhos tornaram-se indispensáveis para a televisào, as telecomunicações, a meteorologia, a espionagem militar, a navegação etc. A supremacia do poder será doravante decidida no espaço. O que pressupõe uma indústria de performances aeronáuticas, como a das bases de lançamento e de fabricação de satélites. Só alguns países (EUA,UE, Rússia, China, India, Israel e Japão) detêm as cartas tecnológicas para dominar estas técnicas que lhes abrem caminho para o poder no próximo século. 

As batalhas, econômicas e políticas, das tecnologias do espaço tornaram-se para os Estados extremamente importantes. Este desenvolvimento irreversível da tecnologia colocará em jogo a sobrevivência da humanidade. O homem continua a se servir da natureza como se ela lhe fosse subalterna, enquanto suas pesquisas atingem fronteiras essenciais. Em vez de contribuir para difundir o bem-estar e a justiça, o saber serve muito freqüentemente aos detentores privilegiados do poder. 

Um grupo de empresas domina a pesquisa mundial para seu próprio benefício. No Norte, as catástrofes de Chernobil, do sangue contaminado na França, o escândalo do amianto (agente cancerígeno disseminado na construção civil), da vaca louca etc não bastaram para provocar um amplo debate internacional que encare os problemas da emergência desta tecno-sociedade. O Sul, vítima do êxodo dos cérebros, recusa-se progressivamente a receber os rejeitos e detritos da sociedade industrial e dos pesticidas. A célula e o gene, graças aos avanços das manipulações genéticas das biotecnologias, tornaram-se matéria-prima ao mesmo nível do petróleo e do algodao. O ser humano aceitará tornar-se, em nome da ciência e do progresso, uma matéria-prima lucrativa? 
Revolução das Comunicações 

O casamento da informação, das telecomunicações e da televisào provocou uma verdadeira revoluçào que tornou possível a tecnologia dos numéricos. Isso significou mais meios de comunicação (como mostra o boom atual do celular e da internet) e o desenvolvimento de novos hábitos. Daqui para a frente, numerosas riquezas da multimídia serão acessíveis. Esta revolução da comunicação levará a consequências de todo o tipo. Tal como na economia, as indústrias de comunicação poderão ser a locomotiva do poder no proximo milênio. E, na esfera social, surgirá uma nova cultura entre info-ricos e info-pobres, entre países do Norte, hiperequipados e do Sul, subequipados, na direção de uma civilização do caos... 

As sociedades ocidentais não se colocam mais claramente diante do espelho do futuro. Elas parecem assombradas pelo desemprego, tomadas pelas incertezas, intimidadas pelo choque das novas tecnologias, perturbadas pela globalização da economia, preocupadas com a degradação do meio ambiente e fortemente desmoralizadas por uma corrupção galopante. Além do mais, a proliferaçào de guerras étnicas difunde sobre essas sociedades o ressurgimento de remorsos históricos e um sentimento de náusea. 
Neste contexto sombrio, QUAL É A RESPONSABILIDADE DA CULTURA? 

Os EUA são nesta matéria também a referência e os pioneiros da cultura de massa em se tratando de esporte, world music, séries televisivas, programas informativos ou parques temáticos. Tomado pelos mercadores, o modelo cultural decaiu para o insignificante,na sensacionalidade e na vulgaridade. Os criadores poderão deixar passar tudo isto? Os intelectuais saberão se mobilizar para evitar que ao amanhecer de um novo milênio a civilização mergulhe na fascinação do caos?

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Ignace de Ramonet é autor do livro Geopolítica do Caos, e é um dos editores do Le Monde Diplomatique, tradicional jornal de centro-esquerda francês, dos mais respeitáveis do mundo 
Traduzido por Angela Couto 

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