» Especial por Marcelo Netto Rodrigues, de Genebra

As Vítimas do Muro Invi$ível
(Marcelo Netto Rodrigues, 2002-09-09)

"Tudo bem considerar a cor, contanto que seja verde" é a lógica do Norte expressa sem pudor na propaganda do metrô. "Frau Alves de Oliveira, a senhora está presa!" O sobrenome de Lucilene era a senha para que fosse acusada de um crime que não cometera e para que não tivesse a quem recorrer. 

Assim como o personagem de "O Processo", de Kafka, Lucilene tentava se lembrar de algum delito que pudesse explicar as algemas que tinha agora em seus "pulsos do Sul". Seria por um copo que havia quebrado na casa de um brasileiro que trabalhava? Ou por um pouco de sabão em pó "emprestado" sem o consentimento de sua vizinha, na lavanderia do prédio, naquela manhã?

A acusação tinha sim a ver com lavagem, mas de dinheiro. Lucilene seria o perfeito "bode expiatório do Sul" para que um de seus "compatriotas" pudesse receber um seguro equivalente a CHF 18.000 francos suíços (R$ 35.000), em troca de sua extradição como ladra.

Eduardo Goretti, arquiteto brasileiro, casado com uma suíça italiana para conseguir os papéis de residência, só não contava que Lucilene, apesar de casada com um suíço, havia preferido não trocar de nome.

Lucilene foi salva pelo pó que deixou de limpar, pelo marido e pela falta de suas digitais na mala cheia de ouro deixada estrategicamente em baixo da cama por Goretti. "Por alguma força divina, ignorei a mala, não a removi do lugar. Ele me pôs na cadeia, e foi tranqüilo para o Festival de Montreaux". Mesmo sem nada provado, Goretti recebeu o seguro e o processo está parado.

Brasileiros mui amigos

Lucilene já havia sido vítima da malandragem araponga em 3 casas de brasileiros casados com suíços desde que chegara como babysitter, empregada e jardineira, nas proximidades de Zurique, em agosto de 99, aos 20 anos. Não sabia que ganhava menos e trabalhava mais do que o normal para padrões europeus. 

Suas patroas brasileiras alegavam que o salário era bom comparado com o Real: casa, comida, CHF 200 francos para viver na Suíça (R$ 400,00), e CHF 100 francos (R$ 200,00) mandados à sua família no Brasil. O que Lucilene não fazia idéia é que deveria ganhar 9 vezes mais como doméstica na Suíça, em torno de CHF 3.000 francos/mês (R$ 5.000,00) . Quem a abriu os olhos, e depois o coração foi Christian Gier, seu professor de alemão.

Christian, 32, já era apaixonado pelo Brasil desde 91 quando passou 1 ano e meio trabalhando voluntariamente com as CEB's, o MST e a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan). Depois teve uma proposta "de construir uma casinha na aldeia junto com os índios do Rio Negro, fazer roça e viver lá,...mas por alguma razão voltei para Suíça e não me tornei um 'índio brasileiro'". Lucilene agradece.

O Muro Invisível

O caso de Lucilene é atípico. Alguém do outro lado do Muro Invisível a resgatou. Não que a "Europa Rica" não queira e não precise de "imigrantes pobres". Só não quer perder o controle deles. Preferem, assim, tê-los fichados, legalizados, em número suficiente para realizar os serviços que desprezam, vendo o excedente como um peso custoso e indesejável.

Nem o Muro da Vergonha de 3 mil km nos EUA chega perto de seu requinte. O Muro Invisível erguido de euros, libras e dólares tenta conter o usurpado Sul de compartilhar seu espólio para além do que o Norte considera um mal necessário. Com uma demão de leis ambíguas e politicamente corretas, o Muro aumenta sua altura a cada dia (vide a nova obrigatoriedade de visto para argentinos que queiram agora ir para os EUA). 

A Espanha, por exemplo, aprovou mês passado, os primeiros 131 equatorianos que imigrarão para a sua "uma vez metrópole" para trabalhar como construtores e agricultores (como se o Equador não precisasse de mão-de-obra qualificada para construção de casas e produção de alimentos para seu povo). Ao final de 2002, na prática, o Equador perderá para a Espanha 1500 trabalhadores, material humano indispensável para seu desenvolvimento autônomo. Já, para os habitantes do outro lado do "Muro" e para as Nações Unidas, o título é outro: "Espanha ajuda a conter a imigração ilegal".

Integração disfarçada

O título do jornal suíço "Le Temps" repassa a mensagem da recente "vitória" obtida pelo parlamento vizinho. Sob a chamada "Integração", a intenção oposta é sutil: "Na Áustria, os imigrantes incapazes de aprender o alemão serão expulsos". É lógico que o governo se prontifica a oferecer o curso, numa forma de abarcar a todos, e quem sabe embarcar a todos.

Há 4 anos, a Suíça também tentou passar uma lei com segundas intenções, mas não obteve êxito em fixar em 18% a cota de imigrantes. Os números enganam pois só a colônia portuguesa já atinge este limite. O objetivo frustrado era fechar as portas à África e à América Latina por meio de manobras legais. 

Serão necessários 160 milhões de imigrantes em toda Europa até 2050 para suprir as vagas que serão abertas devido a atual política de aposentadoria, segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT). É um Brasil de imigrantes. O problema é que assim como aconteceu no início do século passado no Brasil, os países mais ricos da Europa tendem a preferir "imigrantes pobres brancos" da própria Europa (portugueses, espanhóis, do Leste Europeu e agora até franceses) em detrimento de africanos, asiáticos ou latinoamericanos. A carapaça só muda de cor.

Entre a Suíça e a França hoje, por exemplo, é comum que suíços economizem comprando comida em supermercados franceses, devido a alta cotação de sua moeda frente ao franco francês e que franceses cruzem a fronteira para buscar emprego na Suíça, onde ganharão mais, mesmo trabalhando em funções que nunca se sujeitariam na França.

"Maçã" do Togo

"Sou formada em Comércio e Turismo, mas nem se fosse engenheira conseguiria emprego na minha área porque sou negra. Eles nos olham como animais estúpidos sem inteligência. Eles te dão o emprego que não querem fazer. Tive que trabalhar então numa fábrica de aparelhos odontológicos. Fui despedida por ter dado um tapa na cara de uma portuguesa que me insultou dizendo que nós negros dormíamos em árvores, mas estou processando ela por racismo".

Massan Micciarelli, 39, do Togo, chegou há 12 anos em Genebra. "Quando os africanos falantes de francês chegam aqui, nos obrigam a reaprender o francês para poder participar da faculdade, pois dizem que não falamos e nem escrevemos bem a língua que nos impuseram".

Percebo um anel de rosário em seu dedo, mesmo assim pergunto se abandonou sua espiritualidade desde que saiu da África (recentemente, a imagem dos jogadores brasileiros de futebol rezando após a conquista do penta chocou os europeus). "Na Europa, você esquece Deus, vive para si mesmo. Os brancos europeus dão risada quando vêm alguém rezando. Rezo no ônibus. Voltei a rezar a pouco tempo, acredito que meus pais na África não me ensinariam coisas ruins na infância. 

Os porquês do Muro...

- Um estadunidense consome a mesma energia elétrica de 55 indianos, 168 tanzanianos e 900 nepaleses. A terra nao pode suportar 6 bilhões de pessoas neste ritmo de "Primeiro Mundo".

- Na Europa, os salários dos setores mais pobres e dos mais ricos estão numa proporção de 1 para 6. Nos EUA, estão de 1 para 9, Na América Latina, de 1 para 30.

- 1885: as potências européias repartem entre si o Continente Africano em Berlim, Alemanha. A África é apenas uma tela para uma suposta ação humanitária reservada a alguns salvadores vindos de fora, diz um bispo de Madagascar.

- Uma criança nascida na Suíça provocará durante a sua vida um gasto de recursos naturais e um dano ao meio ambiente de 10 a 50 vezes maior do que uma criança indígena.

- O planeta tem hoje 6 bilhões de habitantes. Destes, 3 bilhões vivem na pobreza. Um bilhão de habitantes vive com menos de 1 dólar diário, 2 bilhões vivem com um a dois dólares diários. Um bilhão de pessoas não dispõem de moradia digna. 100 milhões sobrevivem diariamente na ruas do mundo. Na América Latina, são 20 milhões de pessoas.

...na História do Brasil

- 1808: assinada a lei que concedia terra a todos os estrangeiros, não negros, que viessem para o Brasil.

- 1824: a Constituição brasileira proíbe os leprosos e os negros de freqüentarem a escola.

- 1945: Getúlio Vargas assina o decreto que reabre a imigração para o Brasil. Este decreto permite apenas a entrada no Brasil de pessoas "de acordo com a necessidade de preservar e desenvolver na composição étnica do país as características mais convenientes de sua ascendência européia".

- 1969: Médici proíbe em toda a imprensa notícias sobre "índios, guerrilha e movimento negro e contra a discriminação racial...."

- 1980: O governo Republicano, abrindo as portas do Brasil aos imigrantes europeus, estabelece que africanos e asiáticos só poderão entrar mediante autorizacão do Congresso.
(fonte Agenda Latino Americana)

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Marcelo Netto Rodrigues
Jornalista independente, militante de base do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

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