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Afinal, uma luz no fim do túnel!
(José Lucas Alves Filho, 2002-04-25)

"Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas de sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo".
José Saramago, - Mensagem de encerramento ao Fórum Social Mundial, Porto Alegre, Brasil, 2002.

Sábias palavras, do gênio perspicaz de Saramago, quem vem apontando para uma crítica da realidade atual sem os subterfúgios de quem precisa conviver na rede de intrigas e concessões que a participação política na divisão de poderes obriga. A palavra de quem tem compromisso com a História e a Humanidade, e não com os objetivos imediatos e mesquinhos de uma fatia no poder consentido.

Saramago já classificou o capitalismo selvagem que conhecemos hoje como o "Capitalismo Autoritário", o que nos pareceu muito apropriado para caracterizar o sistema de dominação onde a última palavra é dada pelo sistema financeiro mundial, que traz atadas as cadeias da estagnação econômica junto com as correntes do desemprego amplo, geral e irrestrito, e que só poderia exercer essa dominação se a ele lhe fosse dado uma autoridade herdada das ditaduras recentes, e transformada em preceitos legais para preservar o espírito discriminatório e arrogante, preconceituoso e onipotente, alienante e infracultural com que as ditaduras moldaram as sociedades durante o século passado, sufocando a inteligência política e ideológica capaz de acompanhar o progresso tecnológico da Humanidade.
Um sistema que transmudou o centro e essência do capitalismo da mercadoria para seu símbolo - a moeda, o dinheiro, o capital usurário e não mais o capital produtivo. Que relega a indústria, o comércio e os serviços úteis a segundo plano na formação social e que destaca ao primeiro plano apenas um dos seus aspectos - a convertibilidade da mercadoria em dinheiro e, a sua vez, a troca incessante desse dinheiro urbi et orbi, numa urbi representada pelos Estados - bancos e pelo orbi inteiramente comandado pelo FMI.
Um sistema que despreza a força de trabalho e faz todo empenho para tornar o mais degradante, o mais humilhante, o mais submisso aquele trabalhador produtivo, o verdadeiro construtor das riquezas do mundo, lançando-o ao inferno do desemprego ou mantendo-o escravizado à flexibilização do trabalho que tenta tornar irreversível o colaboracionismo sindical daquelas lideranças que traíram ou vacilaram, como representantes dos trabalhadores. .
Mas, a História não caminha para trás. Nos custa continuar pensando assim? Depois de tanto atraso, tantas derrotas, tanta decepção?
É preciso continuar a ter esperança.
Mas não pode ser uma esperança sem base, abstrata, idealista, inconseqüente. Forçoso é que seja uma esperança palpável, consistente, indeclinável, que seja nossa esperança - ao menos, uma luz no fim do túnel.
Parece que depois da queda da União Soviética as esquerdas entraram em depressão e, na falta de esperança, na acomodação da participação permitida pela classe dominante, que cedeu lugar para continuar dominando.
Pensemos bem: Desde o final da década de cinqüenta, desde o início da década de sessenta, que as esquerdas mundiais elaboraram uma crítica contundente ao regime de Partido Único, à falta de liberdade nos países do socialismo real, às constantes conciliações do poder soviético com os Estados Unidos, embora ainda fosse este um contrapeso na política mundial que impedia a intervenção tresloucada dos americanos, com medo de uma guerra atômica.
A grande maioria da esquerda mundial exigia mudanças revolucionárias no socialismo e abriu suas baterias contra o "Partidão" ferozmente, principalmente durante o ciclo guerrilheiro. No entanto, quando o acerto dessas críticas é demonstrado cabalmente pelos fatos históricos, a esquerda se sente órfã, desamparada, como se algum dia houvesse tido esperanças nas mudanças revolucionárias positivas da União Soviética e dos Partidos Comunistas.
Então perguntamos: não terá sido um avanço a derrocada do sistema do socialismo real? É claro que não foi como queríamos - para uma evolução socialista. Mas o certo é que aquele sistema não servia aos trabalhadores e por isso encontrou-se na encruzilhada, na disjuntiva de abandonar o socialismo, ou tornar a encontrar o melhor caminho para a transformação da sociedade em uma opção mais justa e democrática, uma sociedade de produtores livres, como sempre foi a proposta de Marx/Engels e de Lênin para a construção do socialismo.
Por uma década, então, os Estados Unidos tornaram-se a única potência a mandar e desmandar no mundo, sem medo de ser contestada. Ainda bem que os Bushes só estiveram no comando quando ainda era muito cedo para compreender o alcance desta confortável posição ou agora, quando o filho bota todas as cartas na mesa, mas o fantasma do Vietnã ainda paira como advertência para seus militares, aconselhando-os a não embarcarem em canoa furada do novo hitlerzinho.
A decadência da democracia torna-se assim, cada vez mais evidente - tanto o domínio do capital financeiro improdutivo e especulador necessita sempre de maior autoridade e impunidade para subordinar diante de si todos os demais setores da economia e da sociedade, como o fracasso do sistema socialista que existia deixou os Estados Unidos com as mãos livres para intervir em qualquer país, sem sofrer contestação dos demais países que se dizem "democráticos", mas que estão subjugados à política externa americana.
Porem, é preciso fazer notar que a política imperialista norte-americana só é possível porque existe um interesse geral entre os países desenvolvidos de sustentação de um capitalismo financeiro que beneficia a todos, tendo os Estados Unidos por cabeça, por ser o mais rico e mais forte militarmente. Eles não estão obrigados a seguir o novo Hitler, mas o seguem porque seus interesses financeiros especulativos coincidem plenamente.
Transformaram seus Estados em Estados - bancos, onde uma tecnocracia financeira, com base no Banco Central local é o verdadeiro governante, cumprindo os políticos o papel de protetores, através das leis, dos tributos, das regalias de tratamento aos bancos e financeiras, garantindo as altas taxas de retorno desses capitais especulativos e mantendo, através de um exército de ocupação contra a população e uma poderosa mídia de sustentação ideológica desse sistema, a concordância ou a subordinação dos trabalhadores à usurpação diária de que são vítimas. O quadro, portanto, é desolador.

Não vamos, porém, ficar lamentando o leite derramado. Procuremos situar neste cenário tenebroso das perdas democráticas, os prós e os contras que foram se sucedendo nesta última década e nos anos mais recentes. A dialética nos obriga a pesar os dois lados da história, para chegar a apontar as tendências possíveis de desdobramento do movimento social e político e nos ensina a considerar sempre os fatores econômicos que propiciam esse movimento.

O primeiro aspecto positivo da derrocada do Partido Único e do sistema centralizador soviético aparece com a mobilização mais efetiva dos cidadãos na vida política e na vida social, sem o caráter partidário de que antes desfrutavam os movimentos sociais e políticos em geral. A desconfiança nas direções centralizadas levou à contestação mais objetiva e criativa, sem que para isto as pessoas tivessem que "romper" com seus partidos, e exercendo efetivamente uma democracia interna que antes não teria espaço.

Os cidadãos, mesmo sem organização político - partidária estão intervindo mais, aprendendo a intervir social e politicamente. No Brasil apareceram os vários movimentos sociais pela Reforma Agrária, sem vínculo partidário direto, nem subordinação obrigatória a tendências partidárias. No México, foram restaurados movimentos sociais que defendem os indígenas, como os Zapatistas. Na Argentina, o peronismo todo poderoso tem perdido o controle das massas, que se afastam cada vez mais das direções centralizadoras, sem contudo perderem em ritmo e volume de sua ação política e social. 
No mundo inteiro, foram reforçados de maneira independente inúmeros movimentos pelos direitos humanos, pela defesa do meio ambiente, pela ajuda humanitária, pelo microcrédito às populações carentes, pela erradicação de enfermidades e pelo combate ao analfabetismo. As formas de organização não governamentais se multiplicaram e intervêm em muitos setores sociais e econômicos, encontrando novos meios de participação que, independente de sua orientação ideológica ou política, têm contribuído para o aprendizado de fortes setores "formadores de opinião" a exercerem sua cidadania e se prepararem, talvez, para novas propostas de organização da Sociedade Humana.
No cenário político propriamente dito, também podemos lembrar fatos recentes que indicam a tendência de superação da crise da democracia, e aponta para uma reformulação econômico social que beneficie amplas massas da população, em prejuízo do capital financeiro - especulativo e dos favorecidos eternos do sistema de dominação capitalista.
É preciso relembrar as quedas de presidentes autoritários em um ciclo de manifestação de massas que assolou o Paraguai, o Equador, o Peru e, mais recentemente, a Argentina e a Venezuela. Até o Brasil teve seus momentos de glória, com as campanhas pelas eleições diretas em 1984 e contra Collor em 1992. No Paraguai, o bandido Oviedo acabou perdendo sua força e tendo que se refugiar no Brasil; no Equador, em 1997, o demagogo Abdala Bucaram, que tomou da Argentina o bendito Cavallo, se exila no Panamá. Seu substituto, Alarcón Rivera sofre, ainda no mesmo ano, um processo penal por corrupção e nepotismo. Já o povo começa a não mais tolerar os desmandos e impunidade dos governantes, o que também ocorre de certa forma no Brasil de hoje, com a queda nas pesquisas de Roseana Sarney e, como conseqüência, sua renúncia. 
No Peru, o ditador Fujimori, espelho para FHC na tentativa de se perpetuar no poder abandona o cargo sob pressão popular e atrás dele vai também o bandido Montecinos, que lembra por um instante nosso PC Farias...Na Argentina, a queda sucessiva de presidentes mostrou que os limites de tolerância com o FMI foram ultrapassados e o povo vai continuar lutando enquanto prevalecer o absurdo econômico do capital financeiro, em uma demonstração de maturidade que supera as demais mobilizações, porque vai de encontro ao cerne da crise, que é a política de "estabilidade" suicida que governa todos os países - bancos. Finalmente, na Venezuela, foi ferido o chefe da máfia, que apostou no golpe militar e perdeu - o Chefão George Bush (ou será 
somente um "Bluff"?) que reivindicava uma OPEP submissa para ficar com as mãos livres para atacar o Iraque.

E não nos esqueçamos do México, que viu cair setenta anos de poder do PRI, atingido pelo cansaço das massas e pelo avanço das contradições de uma extrema posição servil diante dos Estados Unidos, da entrega das reservas de petróleo ao sabor da vontade do FMI em paga de recursos para amainar a crise do capital especulativo, e das contradições sociais e étnicas, com o levante dos indígenas de Palenque, os corajosos zapatistas.
Isto, apenas para ficarmos nos fatos recentes da nossa América, mas com a visão real de um mundo que começa a dar sinais de cansaço da dominação do capital financeiro e de sua política para dominar os trabalhadores. Na Europa, na África e na Ásia, a história também não é diferente. E, para culminar, os Estados Unidos viram, ao final do ano passado, suas incolumidades atingidas, mostrando que eles também são ídolos de pés de barro.
São, todas essas, evidentes sinalizações de uma débil, mas constante luz que teima em bruxulear no final do túnel da decepção, do ceticismo, da desesperança de quem espera do mundo mudanças que favoreçam os trabalhadores, os pobres, as grandes maiorias silenciosas que, ao começar a erguer suas vozes, se farão ouvir em todos os rincões do planeta.

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José Lucas Alves Filho
- Economista pernambucano, formado na Faculdade de Ciências Econômicas de Montevideo. É professor de Metodologia Dialética em cursos de 'pós-graduação'nas universidades de Pernambuco, Consultor de Empresas, escritor e dramaturgo, entre outras atividades. Publicou trabalhos de economia como "Não à Teoria do Subdesenvolvimento" (Kairós, SP, 1983); "S.O.S., Homem do Campo"(Kairós, SP, 1984); "Capital Ilusão"(Ed. Coragem, SP, 1986); "O Fim do Desemprego ou A Jornada de Seis Horas"(Ed. do Autor, Recife, 1999)
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