» Opinião

Raízes do Capitalismo Autoritário
(José Lucas Alves Filho, 2002-09-26)

Como estabelecer a denominação apropriada para o regime capitalista que vivemos atualmente? E, qual o sentido de definir esta sociedade ou a sociedade pós - socialista que conhecemos nos países do Leste Europeu e na antiga União Soviética?

A Sugestão de José Saramago, prêmio NOBEL de Literatura de 1998, para nomear o Capitalismo atual foi : "CAPITALISMO AUTORITÁRIO". 

Estará certa ou será apropriada esta denominação? Em que consistiria a adjetivação "Autoritária", ao capitalismo que conhecemos? O termo de Saramago tem, ao menos, a felicidade de definir o comportamento da sociedade burguesa frente às grandes massas nas duas últimas décadas de uma forma fiel e realista: a sociedade burguesa tem estabelecido um domínio autoritário com todas as nuances de terrorismo oficial contra os trabalhadores e os pobres que tem podido exercer. 

Declarou, como se pode dizer, a "guerra ao povo"; e uma guerra de fato, diária, contínua, permanente, ostensiva em todos os países, "globalizada", como gosta de explicar sua internacionalidade. O "Horror Econômico", de Viviane Forrester bem marcou este estágio de opressão capitalista sobre os trabalhadores e pobres da Europa. Lendo - o, estamos assistindo a mesma realidade da América Latina ou da Ásia, ou dos Estados Unidos, como se suas palavras se enquadrassem em qualquer realidade localizada do planeta.

O autoritarismo tornou-se a verdadeira religião do capitalismo moderno, também chamado "neo - liberalismo", não temos preconceitos quanto a nomes, mas precisamos encontrar a sua essência - a essência que justifique a afirmação que fazemos, junto com Saramago , de "Capitalismo Autoritário".

Vejamos o Século XX, que acabamos de dobrar, século onde o capitalismo apresentou-se com sua verdadeira face, monopolista, imperialista, na plenitude de sua maturidade de regime explorador e devorador de seres humanos, Quimera monstruosa e gigantesca que faria inveja aos velhos monstros mitológicos ou aos horrores da Idade Média Inquisitória.

O século começou com uma guerra mundial de proporções, onde a Alemanha desafiou o poderio de outras nações imperialistas, como a Rússia Czarista, o Império Colonial Inglês, a República Colonial Francesa e, finalmente, o Imperialismo Norte - Americano. E se deu mal. Saiu da guerra espoliada, aviltada pelos vencedores, humilhada em seu orgulho nacional, situação que criou quase imediatamente uma resposta ultra - nacionalista, conservadora e reacionária. Retratada no nazismo, que foi ganhando espaço pouco a pouco na sociedade alemã, eivada dos sentimentos mais negros da inveja e da soberba contraditoriamente unidas na população germânica.

Não se pode explicar o nazismo a partir de Hitler e seus sequazes. Havia uma grande maioria de alemães que desejavam desfrutar de uma condição de vida próspera e utilitarista, a realizar as benesses da vida eterna ainda nesta vida, respaldada por uma religião que exigia o auto - sucesso e o êxito social como exigência para se apresentar puro diante de Deus, e para isto os alemães deveriam libertar-se das injunções e dívidas impostas pelos vitoriosos da primeira guerra, criando um exército que restaurasse o orgulho ferido, através de nova guerra de desforra.

As teorias de imperialismo e dominação do mundo não foram exclusividade da Alemanha, mas estendeu-se a muitos países colonialistas ou pretensamente colonialistas, como a Itália que, para simbolizar a volta do Império Romano, tentou se apoderar da pobre Etiópia, simulacro de colônia pretendida para justificar a farsa - bufa de Mussolini e seus asseclas. Ou ainda Portugal e Espanha, com pobres restos dos impérios mercantilistas do passado, tardias colônias africanas sem expressão econômica, que subjugaram com ódio e fogo durante décadas, para mostrar algum orgulho nacional extraordinariamente artificial.

Assim o Japão, impondo-se sobre a China e outras nações asiáticas, e a própria Inglaterra e a França, na Índia ou no Sudeste Asiático, apertando o torniquete sobre as populações miseráveis dessas regiões, extorquindo o pouco sangue de cada indivíduo, mas arrecadando alguns tesouros pela multiplicação do pouco sangue em nome de centenas de milhões de povos oprimidos.

Do outro lado do mundo, os Estados Unidos era o carrasco da América Latina, quintal exclusivo, propriedade particular dos ianques, que deslocaram ingleses, franceses, holandeses, espanhóis e portugueses antes dominantes, e estabeleceram seu ferrão incontestável, apoiado pelas elites bananeiras e cafezeiras que dominavam individualmente cada porção desse imenso território.

A subserviência dessas elites só eram menores que sua arrogância, ao espoliar seus próprios trabalhadores, mantendo-os na ignorância e na miséria, fomentando enfermidades endêmicas pelo descaso sanitário e pelo abandono de infra-estruturas que poderiam sobrelevar as mazelas dessas sociedades condenadas ao atraso econômico. Dessa forma, décadas de ditaduras caudilhescas e militares se sucederam durante todo o século XX na nossa América Latina.

Se o nazismo alemão durou de 1930 a 1945, quinze anos, portanto, e o fascismo italiano de 1925 a 1945, vinte anos, o fascismo espanhol durou mais de quarenta anos e o português mais de cinqüenta anos! Na América, o nosso Brasil assistiu a duas ditaduras, sendo a do caudilho, de quinze anos e a dos gorilas, mais de vinte anos. A Argentina também se revezou entre caudilho e gorilas, de 1940 até quase 1990; No México, uma dinastia do PRI durou mais de setenta anos; assim os demais países, para não ser muito extenso. Até o Chile, que se prezava por uma "democracia" política, assistiu ao final do século talvez a mais ferrenha das ditaduras militares, durante mais de dezessete anos.

O que queremos mostrar, se olharmos bem a história recente do capitalismo, é que a realidade vivida durante o século não contempla a democracia apregoada pelo capitalismo como sua forma de regimen político, e sim a falta de democracia, o autoritarismo, como regra geral O Colonialismo e o Imperialismo, na Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Estados Unidos são, por outro lado, a face mais exposta e descarada do autoritarismo exercido sobre as grandes massas, extensiva, em seu interior nacional, às populações menos privilegiadas ou excluídas do convívio social dos "brancos". 

Esta foi a tônica da vida social norte - americana, dos boers sul - africanos, dos pieds noires franceses, dos militares japoneses ou dos aristocratas ingleses, que criaram o apartheid contra os negros, os asiáticos, os hindus, os vietnamitas, os chineses, os mexicanos, porto-riquenhos e latino americanos em geral.

A Segunda guerra mundial veio confirmar o autoritarismo sobre todo o mundo capitalista: a força imposta sobre a Alemanha, o Japão e a Itália, tornou esses países dependentes dos Estados Unidos e seu braço executor na Europa e Ásia. Os volumosos créditos despejados para a recuperação desses países após a guerra foram a forma de estratégia adotada para evitar a repetição da situação criada após a primeira guerra, gerando sistemas contrários aos vencedores.

Neste caso, a ameaça do comunismo russo e sua extensão internacional, provocou uma nova guerra surda, mas incontestável, a "guerra fria" chamada, onde rios de dinheiro sustentavam os regimens mais autoritários e terroristas sobre muitos países menores, nos quatro continentes, para conter a insatisfação dos trabalhadores e suas perspectivas socialistas, as lutas desses trabalhadores por suas melhorias econômicas e sociais e a disputa de poder entre o campo capitalista, liderado pelos Estados Unidos e o socialista, liderado pela União Soviética.

Com isto, já se vê, o autoritarismo foi ganhando cada vez mais terreno e tornando-se a face fria e sombria do capitalismo moderno. Como "o uso do cachimbo faz a boca torta", a persistência do autoritarismo em todo o mundo foi criando uma nova filosofia de dominação - a "guerra contra o povo".

E que dizer do socialismo vitorioso na União Soviética, extensivo ao leste Europeu após a Segunda guerra e à China, Vietnã, Coréia, na Ásia ? Qual o papel democrático que ele exerceu como exemplo de uma sociedade posterior ao capitalismo? - Pobres resultados, devemos forçosamente confirmar.

O destino tomado pelo socialismo russo, após a morte de Lenin, foi o pior possível. A ditadura de Stalin sobre o próprio Partido Comunista, endeusando a figura do líder, do chefe, como no nazismo, o "culto à personalidade", como se acostumou chamar, levou a caracterizar também o socialismo como sistema autoritário e não democrático. As imposições de distribuição do excedente econômico, utilizando-se a padronização e a qualidade inferior de produtos como forma de garantir a distribuição dos bens e serviços a toda a população, não permitiu o desenvolvimento da concorrência salutar, a ambição individual nobre, desprezando a iniciativa dos trabalhadores e sua criatividade natural.

Os erros cometidos foram cobrados rigorosamente pela História, com a desestruturação econômica da União Soviética ao final da década de oitenta e a desmontagem do campo socialista Europeu. A indefinição econômica ainda persistente nesses países levaram outros países, como a China e o Vietnã a discutir novas formas de economia social, aproximando-se das formas capitalistas de produção e assimilando fórmulas encomendadas pelos grandes trustes internacionais que os levam igualmente a uma indefinição social e econômica..

O quadro que se vai gerando, portanto, na economia mundial é aterrador : um novo capitalismo, ou um "neo liberalismo" que se estende aos países de economia socialista, salvo uma resistência cubana ou coreana indelével, mas também indefinida, caracterizado pelo autoritarismo intrínseco resultante de décadas de ditaduras, colonialismo e imperialismo exercidas sobre os trabalhadores de todo o mundo, durante o correr do século XX.

O resultado das décadas de ditaduras gerou um sistema "democrático" agressivamente autoritário, conservando na essência a opressão exercida pelas ditaduras e com um aperfeiçoamento da farsa democrática, utilizando para isto uma série de artifícios estatísticos e de propaganda, através de uma poderosa mídia eletrônica capaz de desviar o raciocínio da população dos fatos e dados da realidade para a ilusão criada pela classe dominante de um paraíso artificial e inexistente que deve ser estimulado na mente de toda a classe trabalhadora.

O ilusionismo do "inimigo geral" - a inflação, desviou a atenção da população, do desenvolvimento econômico gerador de excedente a ser distribuído, para um efeito abstrato do sistema mercantil, o preço das mercadorias, gerando uma aprovação absurda dos regimens que contenham a inflação, embora estabeleçam a recessão geral da economia produtora, desempregando em massa e aumentando a miséria e a pobreza a níveis assustadores.

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José Lucas Alves Filho
- Economista pernambucano, formado na Faculdade de Ciências Econômicas de Montevideo. É professor de Metodologia Dialética em cursos de 'pós-graduação'nas universidades de Pernambuco, Consultor de Empresas, escritor e dramaturgo, entre outras atividades. Publicou trabalhos de economia como "Não à Teoria do Subdesenvolvimento" (Kairós, SP, 1983); "S.O.S., Homem do Campo"(Kairós, SP, 1984); "Capital Ilusão"(Ed. Coragem, SP, 1986); "O Fim do Desemprego ou A Jornada de Seis Horas"(Ed. do Autor, Recife, 1999)
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