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O governo Lula e o movimento social
(Altamiro Borges, 2003-01-06)

Já há um certo consenso entre as forças que atuam no movimento social sobre as razões da consagradora vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na sucessão presidencial. Ela teria decorrido, entre outros fatores, da crescente insatisfação do povo diante do destrutivo modelo neoliberal aplicado por FHC; do acúmulo de forças dos setores populares nas lutas sociais e no terreno institucional; da divisão do bloco dominante nesta contenda; e da capacidade da esquerda de unir forças, numa ampla política de alianças, contra a fúria liberal. Como resultado, a esperança venceu o medo; o desejo de mudança derrotou o continuísmo.

Passada a ressaca dos festejos desta vitória histórica, também começam a ficar mais nítidos os limites do futuro governo. Todas as correntes de esquerda, até as mais voluntaristas e sectárias, concordam que não será nada fácil a gestão de Lula. A trágica herança deixada por FHC não permite ilusões com uma fase de "paz e amor". O país está pendurado na brocha, quase insolvente, o que inibe o crescimento econômico e, conseqüentemente, a geração de emprego e renda. Medidas paliativas, assistenciais, serviriam apenas para atenuar os graves problemas. Além disso, o quadro mundial é de ofensiva da reação, do "império do mal". Os EUA exigem ainda mais sacrifícios das nações dependentes no altar do demoníaco mercado.

Diante deste complexo quadro, qual deve ser o papel do movimento social, em especial do sindicalismo? Até por ser uma situação inédita na história do país, que pela primeira vez elege um governo nitidamente identificado com as esquerdas, não há respostas fáceis para esta delicada questão. Mas já surgem algumas pistas de como as forças populares devem se comportar. A primeira é sobre a necessidade de se defender esta conquista democrática do povo brasileiro, fruto de tantas lutas. Os representantes do grande capital, tendo na dianteira os setores hidrófobos da direita, farão de tudo para desestabilizar o novo governo. "A direita norte-americana parece considerar Da Silva como um comunista disfarçado e já pressiona Bush a adotar uma atitude dura em relação a ele", revela recente artigo do jornal The New York Times.

As corporações, principalmente do setor financeiro, utilizarão da "mão invisível do mercado" para evitar alterações de rumo no país que afetem seus mesquinhos interesses. Elas também não vacilarão em usar de ardis políticos, inclusive instigando o legítimo anseio de mudanças para fustigar o futuro governo. Neste cenário, qualquer iniciativa descolada da realidade, que desconsidere a tensa correlação de forças, fará o jogo da direita. Como adverte César Benjamin, autor do livro A opção brasileira, "um eventual fracasso do novo governo será um fracasso de todos nós, um fracasso do Brasil". Na mesma linha de raciocínio, o sociólogo Emir Sader, membro da coordenação do Fórum Social Mundial, argumenta: "Se fracassarmos, teremos perpetuado o Brasil das injustiças e condenado a esquerda a um projeto sem esperança". 

A compreensão desta nova realidade parece já impregnar as correntes mais lúcidas que militam no campo popular. A CUT, principal central sindical do país, já anunciou que não abdicará da sua autonomia, mas que apostará na "negociação permanente" para garantir os avanços expressos na candidatura Lula. "A CUT não será instrumento do esquerdismo infantil e nem da direita desavergonhada que farão alianças para desestabilizar o novo governo", garantiu João Felicio, presidente da entidade. Também o MST, que promove nesta semana um seminário nacional em Pernambuco, busca adotar uma posição mais matizada diante do novo quadro político. "A ação política não poderá ser sectária", explica Gilmar Mauro, membro da coordenação do Movimento dos Sem Terra.

PRESSÃO POPULAR

Outra pista importante, quase um contraponto, é sobre a necessidade dos movimentos sociais investirem pesado no trabalho de formação, organização e mobilização dos trabalhadores neste novo tempo. Num contexto de intensos conflitos de classe, o campo popular precisará reforçar ainda mais a sua capacidade de intervenção política. Isto porque o capital, apesar de dividido na disputa eleitoral, tende a se unificar novamente para fazer vingar seus intentos. É obvio que não abandonou sua agenda fundada na exploração de classe. Ele fará forte pressão para enquadrar o futuro governante. Além disso, o projeto neoliberal foi derrotado nas urnas, mas a ditadura do capital financeiro ainda mantém as rédeas do poder. O esforço de domesticação do novo governo faz parte dos planos das elites! 

O jornal inglês The Independent expressa com nitidez esta artimanha: "Rejeição da liberal economia de mercado pelos eleitores do mais populoso país da América Latina? Ou eleição de um líder que terá mais confiança do eleitorado e por isso será capaz de executar a próxima etapa das necessárias reformas?". De forma arrogante, responde: "Talvez o país precise da esquerda para consolidar os ganhos da direita". Com este objetivo, e utilizando-se de vários expedientes econômicos, políticos, ideológicos e outros, o capital fará o impensável para manter sob controle os rumos desta nação estratégica para o sistema. Caso ele não consiga, apostará então na pura desestabilização - vide o exemplo de Hugo Chávez na Venezuela. 

Exatamente por isso, o movimento sindical e popular precisa se capacitar para interferir neste conturbado cenário. Se o voluntarismo esquerdista é um crime, que faz o jogo da direita, a postura da adesão passiva também cobraria um alto preço, abrindo espaço para as manobras das elites. O esforço deve ser no sentido de pavimentar um poderoso campo popular que garanta os avanços expressos na candidatura Lula. Com base num projeto nacional, democrático e popular, é preciso aproveitar o rico momento político que se abre para avançar ainda mais na construção da alternativa de esquerda no país.

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Altamiro Borges é Jornalista, editor da revista Debate Sindical e autor, junto com Marcio Pochmann, do livro “Era FHC – A regressão do trabalho” (Editora Anita Garibaldi, agosto de 2002)
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