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Competitividade - Definição e Problemas de Mensuração
(Rogério Ceron de Oliveira, 2003-01-12)

Muito se tem discorrido sobre a necessidade de almejarmos a uma competitividade maior, que somente sendo mais competitivos é que vamos obter sucesso, crescimento através da competitividade, etc. Enfim, de tão popularizada e vulgarizada, este termo está se tornando mais um jargão econômico sem significado. Neste contexto, vimos discutir algumas das definições do conceito de competitividade e os problemas de mensuração relacionados à competitividade.

Primeiramente, cabe destacar a complexidade do assunto. Quando utilizamos o termo competitividade, estamos envolvendo uma imensidão de variáveis que fazem com que seja necessário especificarmos o contexto no qual estamos trabalhando, podemos estar falando de competitividade entre empresas, em determinados setores produtivos, numa determinada nação, entre nações, no curto ou no longo prazo, ex-ante ou ex-post, etc. Enfim, a complexidade do assunto obriga-nos a dar um foco a análise, senão podemos incorrer no equívoco de utilizar o termo num sentido tão genérico que perde o seu significado ou relevância. 

Iniciaremos essa discussão com algumas das definições dadas à competitividade e seus indicadores mais relevantes, não deixando de comentarmos as limitações de cada definição.

O problema da generalidade excessiva pode ser notado em Chesnais (1981)*, onde define de uma maneira ampla demais a competitividade internacional, caracterizando-a como sendo a capacidade de um país em competir a nível internacional. 

Uma abordagem mais especifica e já considerando os problemas de mensuração pode ser encontrado no Global Competitiveness Report do World Economic Fórum, que analisa a competitividade de 80 países. No estudo, competitividade é definida como a capacidade de um país de sustentar o crescimento econômico nos anos vindouros e medida por dois indicadores diferentes mas complementares. O primeiro denominado de Índice de Crescimento Competitivo (Growth Competitiveness Index - GCI) avalia as condições estabelecidas pelas políticas econômicas e instituições públicas de um país, como base para o crescimento econômico dos próximos anos, associadas às condições existentes para a expansão da inovação tecnológica.

O segundo indicador, denominado de Índice de Competitividade Corrente (Current Competitiveness Index - CCI), avalia os aspectos microeconômicos de um país, considerados a partir da análise das empresas, estrutura de mercado e políticas microeconômicas como base para a competitividade presente. 

Juntos, os índices de crescimento competitivo (GCI) e competitividade corrente (CCI) procuram avaliar a capacidade de cada economia estudada de competir em ambientes de livre mercado. Podemos perceber que além de uma definição um pouco mais sofisticada, não se limitando aos preços e custos. Utiliza dois indicadores em conjunto, amenizando a limitação que cada índice teria individualmente. Ao longo deste texto daremos ênfase à utilização de indicadores em conjunto como forma de reduzir as limitações de cada índice e abarcar um número maior de variáveis.

Uma definição um pouco diferente, centrada na valorização do capital, porém cuidadosa no sentido de evitar a generalidade excessiva é encontrada em Possas e Carvalho (1990)*, caracterizando a competitividade como "o poder de definir (formular e implementar) estratégias de valorização do capital, desde que baseado em aspectos econômicos e não institucionais".
A tabela abaixo evidência à falta de validade empírica da teoria de preços e custos como fatores determinantes da competitividade.

RELAÇÃO DE LONGO PRAZO ENTRE AS MUDANÇAS DE COMPETITIVIDADE E AS MODIFICAÇÕES NAS PERFORMANCES COMERCIAIS PARA OS BENS MANUFATURADOS

1963-1975

PAÍSES

Custo relativo em trabalho por unidade de produto

Os preços relativos às exportações

A parte das exportações

INGLATERRA

-21,4

-12,4

-37,9

EUA

-43,7

-14,1

-17,8

FRANÇA

-8,6

4,9

17,8

ALEMANHA

42,9

10,1

3

ITÁLIA

24,1

-9,3

18,3

JAPÃO

27,1

4,5

72

CANADÁ

-22,3

-13,3

2,3

Carvalho(1993).


A tabela acima, demonstra de maneira um tanto quanto óbvia a incompatibilidade da teoria dos custos e preços como causas e/ou indicadores primordiais da competitividade de uma empresa ou país, não há correlação forte, de acordo com os dados da tabela, entre custos, preços e produtividade, principalmente no longo prazo, tal afirmação se baseia nos dados estatísticos apresentados acima, a despeito da redução significativa nos custos de mão-de-obra e nos preços de exportações da Inglaterra, suas exportações sofreram considerável revés. A mesma observação pode ser feita em relação aos EUA, além disso, podemos notar no caso do Japão e Alemanha, que a despeito da elevação de seus custos e preços, suas exportações apresentaram crescimento no período observado,demonstrando que a teoria da competitividade explicada em termos de preços e custos possui inconsistência no nível empírico.

Haguenauer(1989)* agrupou as noções de competitividade em dois grupos: as que privilegiam o desempenho em termos de venda e penetração nos mercados, que se expressam em indicadores de parcela de mercado e sua expansão; e as que buscam as suas raízes na eficiência produtiva, que usam os coeficientes técnicos ou a produtividade como índices. Possas(1997) acredita que o uso dos dois índices em conjunto é uma forma mais adequada de se mensurar a competitividade de uma empresa num determinado setor.
Possas, discorrendo sobre o problema da competitividade no conceito ex-ante e ex-post, caracteriza a competitividade ex-post como o desempenho efetivamente ocorrido do agente em questão. Este depende da competitividade ex-ante e do acerto da estratégia escolhida pela firma. Mas na maioria dos casos o que interessa é a capacidade ex-ante de concorrer num futuro próximo. Possas, propõe a construção de um vetor setorial para determinar a competitividade ex-ante.

Cohen e Zysman afirmam que "competitividade significa o grau em que uma nação pode, em condições de mercado livre e justo, produzir bens e serviços que passem no teste dos mercados internacionais expandindo, simultaneamente, a renda real de seus cidadãos". Abordagem diferente da tradicional, porém muita sagaz no sentido de compreender a competitividade como em meio que objetiva a um fim especifico, não sendo em si mesma o objetivo final.

Um importante comentário deve ser feito aqui, fica óbvio que a utilização de indicadores do tipo market-share e de rentabilidade possuem inconvenientes e se afastam da realidade com grande freqüência, portanto, um modo possível de reduzir estes efeitos negativos seria utilizarmos os dois índices em conjunto, embora ainda possua inconveniências, estas são sensivelmente reduzidas quando comparadas com a utilização dos indicadores individualmente.

Para Possas, tecnologia afeta qualidade e preços, agindo indiretamente no processo de competitividade. Parece cada vez mais latente, a competitividade associada principalmente com a diferenciação dos produtos através da inovação tecnológica e não com preços e custos. 

Devemos destacar que a geração de tecnologia per si, não constitui razão de aumento da competitividade de maneira automática e sim, somente com elevada interação e aplicação na redução de custos ou aumento da qualidade nos produtos dos diversos segmentos na qual está inserida, pode trazer algum beneficio em se tratando de aumento da competitividade, seja em termos da empresa ou de um grupo de países. Somente com elevada vantagem em relação à tecnologia antiga, uma nova tecnologia é aplicada e torna-se causa do aumento da competitividade, seja através da significativa melhoria da qualidade do produto ou através de relevante redução de custos ou alterando o paradigma tecnológico do setor, possibilitando uma vantagem comparativa que propicia um sobrelucro durante um período curto de tempo.

Enfim, após a exposição de algumas das definições e indicadores da competitividade das empresas e das nações, podemos perceber que há muita divergência na caracterização da competitividade, aos que abordam a questão de maneira mais superficial não encontram dificuldades em caracterizá-la, entretanto, aos que se aprofundam nas entranhas da questão, percebem que apenas superficialmente a questão é simples ou de fácil mensuração. Podemos notar que o termo competitividade tem uma relação muito próxima com a busca pela valorização do capital, assim, inovação tecnológica, produtividade (afetada pela primeira), atua no sentido de colaborar como o objetivo de aumentar a valorização do capital através de redução de custos ou vantagens de diferenciação que permitam obter uma maior valorização do capital e resistir às ciclos do capitalismo. 

Podemos considerar a competitividade como um processo, tendo como causa a concorrência entre firmas ou entre países, tendo como fim, a expansão da valorização do capital, no caso das empresas, e expansão do poder aquisitivo real (em termos internacionais) no caso de países, sendo a inovação tecnológica (seja em produtos, processos ou gestão), afetando os custos e principalmente, diferenciando o produto, os meios para esse fim.

* Ver Possas(1997)

BIBLIOGRAFIA 
Competitividade internacional e desenvolvimento das Regiões - Bernhard Fischer - Tradução - George Bernard Sperber - 1998.
Maria Silvia Possas - Tese de Doutorado - Concorrência e Competitividade - Instituto de Economia- UNICAMP-1997.
Enéas Gonçalves de Carvalho - Tese de Mestrado - Competitividade Internacional em uma perspectiva setorial: Uma abordagem a partir da Industria Automobilística Japonesa - Instituto de Economia - UNICAMP-1993.

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Rogério Ceron de Oliveira, 21 anos - Estudante de Economia da UNICAMP
Estagiário no CPqD de Campinas
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