» Privacidade

Quem tem medo do Big Brother?
(Richard Delemos, 2002--02-02)

Volta e meia esbarramos em artigos, reportagens e discussões sobre o tema da segurança e da privacidade da e na Internet. É um tema que todo mundo está interessado mas, como sempre acontece, desaparece tão rápido como surgiu. Parece que é um assunto tratado como as salchichas e a política: é melhor não saber como são feitas.

George Orwell acertou em cheio quando previu o Big Brother (quero dizer, previu não, sabia, porque bem na época, 1949, em que escreveu a obra "1984", que descreve uma terrível sociedade totalizadora e desumanizada que observa tudo e todos, o seu governo natal, o Reino Unido e os EUA, um ano antes, em 1948, criavam o que seria hoje o projeto Echelon). Deste então o medo e a tortura de saber ou não se os nossos esqueletos do armário (é, porque todos nós temos pelo menos um) são de cada um de nós apenas ou outros já o conhecem. Diz-se que para se manter um segredo entre duas pessoas a outra tem que estar no além.

Todo mundo deseja acreditar que está livre da bisbilhotice alheia, que é um anônimo na Internet. Essa realidade não existe. As possibilidades de ter sua privacidade rompida são inúmeras mas, não pensem que exista um método ou ferramenta 100% seguro contra o acesso as informações particulares ou empresariais. O que se pode fazer é apenas dificultar o acesso, mas tenha certeza, você está sendo monitorado por alguns embriões de Big Brothers espalhados pelo globo.

Esse tema gera receios e medos que acabam por gerar a paranóia, o que não deixa de ter suas razões para existir. Essa paranóia, ás vezes, cria alguns benefícios mas, também cria alguns monstros (embriões de Big Brothers). Muitas vezes as primeiras vítimas da paranóia é a utilização do compartilhamento de informações e a gestão do conhecimento, gerando dificuldades da sua implementação.

De nada adianta a empresa adotar um look moderno, sem paredes, divisões, com avaliação 360 graus, com um organograma horizontal, se as informações e a gestão do conhecimento são tratadas verticalmente. Já se sabe a muito tempo: quem detêm a informação detêm o poder e que o poder compartilhado gera muito mais riqueza. À despeito do manual da empresa que diz que o organograma é horizontal, a informação sendo tratada de forma hierarquizada e vertical o poder também será.

Algumas iniciativas no auge da Guerra Fria, para buscar e proteger informações e seus sistemas de propagação gerou um benefício, a Internet (ex-Arpanet) mas, igualmente, gerou um monstro, o projeto Echelon.

O projeto Echelon, foi implantado em 1948 para recolher o máximo de informações sobre a União Soviética e os seus aliados. Mais tarde, com a queda do bloco soviético poderia pensar-se que o Echelon seria congelado ou desativado. Pura ilusão: o sistema não só não foi desativado como, pelo contrário, cresceu e refinou-se.

A primeira vez que ouvi falar sobre ele, foi em 1988. Tomei contato novamente em 1992, então de forma mais consistente, onde tive a oportunidade de observar um memorial descritivo do projeto. O projeto Echelon consiste em sistema de vigilância global, dirigido pela NSA (National Security Agency) dos EUA e operado com a colaboração de agências similares da Inglaterra (GCHQ), Austrália, Canadá, e Nova Zelândia.

Possui uma rede de 25 satélites e tem cinco bases-mãe de operações (duas estão nos EUA: Yakima (200 km a sudoeste de Seattle) e Sugar Grove (250 km a sudoeste de Washington), e as restantes estão em Morwenstow, na Cornualha britânica, Waihopai, na Nova Zelândia e Geraldton, no Oeste da Austrália) e cerca de 50 bases secretas de escuta dos satélites de comunicações espalhadas por 20 países, principalmente na Alemanha, Japão, Nova Zelândia e Austrália. 95% das comunicações mundiais passam pelos seus computadores.

O Echelon pode virtualmente capturar e analisar qualquer chamada telefônica, e-mail ou transmissão de fax e telex (militar, política, econômica, comercial e particular) em qualquer parte do planeta, não importando o meio de transmissão utilizado (satélite, microondas, celular ou até fibra óptica). Com auxílio de tecnologias sofisticadas de reconhecimento de voz e de reconhecimento óptico de caracteres (OCR), as mensagens são minuciosamente examinadas à procura de palavras-chave (o chamado "dicionário Echelon").

Qualquer mensagem que contenha uma dessas palavras é automaticamente gravada e transcrita para posterior exame por um time de analistas (a NSA emprega 100.000 pessoas, é o maior empregador de matemáticos do mundo) em cada um dos centros de espionagem sendo, no final do processo, é transferida, através do estratégico 'hub" de Menwith Hill, na Inglaterra, por satélite, para Fort Meade, em Maryland, nos EUA, precisamente a sede da NSA.

Até 1998 os computadores do projeto Echelon conseguiam descriptografar, em tempo real, qualquer mensagem codificada em chave de até 40 bits, as chaves superiores demoravam um pouco mais, e as chaves de acima de 128 bits (como o PGP, o SSLeay e o GNU Privacy Guard), demandavam esforços imensos. Até então a NSA restringia visceralmente (e dos parceiros comerciais dos EUA) qualquer exportação de software com chave superior á 64. No final do ano passado, a NSA liberou a exportação de softwares de criptografia superiores á 128 bits. Isso significa que agora eles já decodificam em tempo real as chaves desse tamanho.

A partir de 1995 a Europa implantou um sistema semelhante ao Echelon. Desde então, a Europa tenta se integrar o seu sistema ao do projeto Echelon. As negociações estão em curso desde então, com pressões de ambos os lados. No começo de 98 houve várias discussões no Parlamento Europeu que acabou vazando para a imprensa. Agora, neste momento, nova discussão sobre projeto Echelon é travada vigorosamente.

O governo dos EUA, antes de concluir o acordo, deseja que seja dada uma liberdade maior para implementar ações que levem á um maior controle e vigilância das comunicações (incluindo aí a Internet). Nesse bolo entra o Acordo de Wassemar (participam desse a Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Bulgária, Coréia, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Finlândia, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça, Turquia, Ucrânia. O Brasil não faz parte da lista.).

Os ataques de hackers em grandes players da Internet servem mais para forçar a opinião pública a aceitar uma incursão maior dos governos na privacidade nossa de cada dia. Percebam que nenhum dos ataques gerou uma catástrofe a não ser a conexão mais lenta ou algumas horas sem um serviço, e o clamor da sociedade para conter essas ações (leia-se: mais controles governamentais sobre as comunicações e Internet). E não estou dizendo que os hackers foram manipulados para executarem tal tarefa.

Nossa, vou parando por aqui, porque esse artigo já está se tornando um ensaio e daqui a pouco, acrescento uns aliens, uma dupla de agentes do FBI, uma conspiração (opa, isso já tem), e acaba virando mais um episódio da série Arquivo X (X Files para os puristas). Boa idéia, vou mandar uma cópia desse artigo para algum produtor de Hollywood e ver se não ganho alguns dólares.

O importante de tudo isso é para demonstrar que a pouca privacidade que temos é brincadeira de criança comparando-se com o que paira (e observa) sobre nossas cabeças. Se a gente for ter medo de usar a Internet por causa da falta de segurança e privacidade ou usar a mesma prática e procedimentos para o resto de nossas ações cotidianas, vamos acabar nos tornando ermitões com uma vela na mão e sem sair mais de casa.

Então, vamos fazer como sempre fazemos, colocar tudo isso no cesto, junto com as salchichas e a política e não se importar como são feitas, certo? Talvez. Não podemos nos iludir que a nossa privacidade está garantida mas, saber quando e onde ela está comprometida, isso todos tem o direito de saber.


________________
Richard Delemos - Articulista, Conferencista, é Especialista em Estratégia, Planejamento Estratégico e Análise de Informações, Managing Director do fundo de investimentos Brudder Capital Management Group LLC e Diretor de Operações da DNA Master - Business Integrator & Management Project (http://www.dnamaster.com.br)
Outros artigos do autor

Enviar para amigo

Fazer comentário

Imprimir a página

Os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores ou fontes e podem não expressar a opinião da Economiabr.net