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O humor nas arábias e a inflação no Brasil
(Ronald Domingues, 2002-04-29)

Os aumentos nos preços administrados, devido à disparada do preço internacional do petróleo, poderão fazer com que a inflação supere o limite de 5,5% em 2002, acordado com o FMI. Para evitar o descumprimento da meta, o Banco Central poderá interromper as reduções na taxa de juros, comprometendo o crescimento da economia brasileira no médio prazo.

Apesar da inflação apresentar-se aparentemente sob controle nos três primeiros meses do ano, o seu núcleo mantém trajetória ascendente. Calculado pela Fundação Getúlio Vargas, o núcleo da inflação é um índice que exclui a variação nos preços de produtos extremamente sazonais. O núcleo acumulado de 12 meses até fevereiro foi de 7,50%. Quando esse índice apresenta uma taxa elevada a situação torna-se preocupante, uma vez que fica mais difícil ocorrer um recuo da taxa sem que haja uma ação mais severa por parte da autoridade monetária, o Banco Central.

Recentemente, a crise no Oriente Médio entre israelenses e palestinos afetou fortemente a cotação do barril de petróleo nas principais bolsas que negociam essa commoditie, a saber, Nova Iorque e Londres. Diante de um possível que envolva Estados Unidos e Iraque, os países árabes poderão reduzir a produção de petróleo, como forma de "contra-ataque" às economias ocidentais.

Aproximadamente 80% do petróleo consumido no Brasil é proveniente do próprio país. Mesmo assim, o Governo Federal decidiu que seguiremos, no mercado interno, a cotação internacional do petróleo, repassando as oscilações do preço internacional do produto e da cotação da moeda norte-americana para os preços dos derivados no mercado doméstico. Esse repasse é feito pela Petrobrás que ainda é praticamente um monopólio tanto extração quanto no restante da cadeia produtiva. O objetivo desse repasse quase que imediato para os preços é exatamente tornar o mercado interno atrativo para que empresas estrangeiras venham concorrer com a estatal.

Estabelecido um cenário de ocorrência de pequenos conflitos ao longo do ano, os chamados "preços administrados" devem subir consideravelmente. Eles representam cerca de 30% do IPCA, o índice oficial da inflação brasileira. A queda na cotação do dólar norte-americano observada nos últimos dias poderia compensar a alta do petróleo. Apesar disso, alguns analistas esperam que a moeda volte a subir em breve.

Com os preços dos derivados de petróleo no Brasil variandode acordo com o humor de israelenses, palestinos, iraquianos, dentre outros povos, fica difícil garantir que a meta de 5,5% para o IPCA acordada com o Fundo Monetário seja cumprida neste ano, caso a situação não seja resolvida rapidamente.

Por fim, cabe ressaltar que contamos também com o repasse da alta dos combustíveis para diversos produtos e serviços. Além disso, devem ocorrer novos reajustes nas tarifas de energia elétrica nos próximos meses. Caso o Banco Central venha a manter a taxa básica no atual patamar de 18,50% ao ano, para evitar a alta da inflação, mais uma vez o crescimento econômico poderá ser menor do que o esperado.

Principais tendências

Segundo o Banco Central, o PIB apresentará um crescimento de 2,5% neste ano. As expectativas do mercado para o produto (Relatório Focus) são de 2,42% em 2002 e 3,50% no próximo ano.

Após rever suas projeções recentemente, o Banco Central espera uma inflação de 4,4% para o ano corrente e de 2,8% para o próximo. Os agentes esperam que esses índices fiquem em 5,04% e 4,00% respectivamente.

A captação de recursos no exterior por empresas privadas ao longo de março, a liberação de mais US$ 4,6 bilhões para saque no FMI pelo Brasil e a autorização pelo Fundo para que a autoridade monetária o Banco Central atue no mercado futuro manteve o dólar em trajetória decrescente. A expectativa para a paridade em dezembro deste ano é de R$ 2,50/dólar.

A Balança Comercial fechou março com superávit de US$ 594 milhões, mas uma vez impulsionada pela queda nas importações em relação ao mesmo mês do ano passado. O mercado espera que o país alcance um superávit de US$ 4,3 bilhões até dezembro.

No cenário internacional, o índice de confiança do consumidor norte-americano calculado pela Universidade de Michigan subiu consideravelmente em março. Os dados sobre a "locomotiva do capitalismo" mostram que a recuperação econômica ocorrerá de forma lenta, mas sem a ocorrência de pressões inflacionárias, pelo menos nos próximos meses. Na Argentina, a taxa de câmbio atingiu 4 pesos por dólar. As negociações do país com o Fundo Monetário permanecem em ritmo muito lento, uma vez que o governo não tem força política suficiente para estabelecer o fim das "quase-moedas" e ainda os ajustes fiscais nas províncias.

O risco-país brasileiro calculado a partir dos títulos C-bond atingiram o menor patamar em 12 meses no mês de março. Como os principais organismos internacionais aprovam as linhas gerais de política econômica do atual governo, o principal fator que gerou a queda no risco brasileiro foi o crescimento do candidato governista nas pesquisas divulgadas ao longo do mês. Ainda não é possível formular uma expectativa quanto às eleições, visto que as intenções do eleitorado têm sido muito instáveis.

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Ronald Domingues, Economista, formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Ronald Domingues, criador do site www.ronalddomingues.com  Atua no mercado financeiro através de análise macroeconômica e análise fundamentalista de empresas.
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