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O dia da estaca zero. O centro virou periferia
(Marcelo Estraviz, 2001-09-15)

O dia da estaca zero O centro virou periferia

Inevitável o jogo de palavras. O artigo de hoje já estava pronto faz 3 dias. E eu conversaria sobre a periferia é o centro. Mas ... inevitável. Porque ontem é o primeiro dia do resto de nossas vidas.

Estaca zero. Estamos todos embasbacados. Milhares de teorias começarão a pipocar. Desde as mais conspiratórias, estilo geração 68 e a guerra fria, passando pela simplória teoria dos árabes-kamikases, chegando ao fato básico, ridículo e moderno : não foi nada além de terrorismo interno. Oxalá seja isso. Apesar das repercussões, seria o melhor dos piores mundos que nos esperam.

E por que devemos rezar por essa hipótese ? Oras. Porque qualquer opção mais exótica causaria a guerra raivosa. Porque o terrorismo interno traz só (ainda que seja muito) o pânico, a quebra de paradigmas. O medo e a insegurança tão próprios do american way of life. E porque isso significará só (ainda que seja muito, repito) uma era Bush de armamento, de uma "gloriosa" nova época de investimentos militares e anti-terroristas, capazes até de catapultar novamente os EUA a um crescimento econômico que não se esperava antes do 11S (lembrem-se desta data, crianças. Porque 11 de setembro entrou para a história)

A questão é que a partir da óbvia constatação, os Q.I. 91 da era Bush podem preferir complicar o simples. Podem preferir não assumir a desonrosa constatação do terrorismo interno. Abafar a possibilidade de que alguns gringos como eles sejam os reais culpados e decidam, com aquele riso sarcástico texano, jogar alguns mísseis. Promover algumas briguinhas naquele território periférico que é a Arábia. E, via modelo broadcast de construção de verdades, convencer os americanos e o resto (nesta ordem, que conste) : a culpa é da periferia, burra, xiita, babante de raiva anti-americana. Holliwood anos 90 é um truque que ainda funciona para as massas.

Mas é inevitável não lembrar das cenas finais do filme Clube da Luta. (pós Holliwood anos 90, pré alguma coisa que virá). Inevitável não achar que esse movimento descentralizado, anárquico, perigosamente descontrolado, movido por jovens loucos, modernos, niilistas e conectados, não seja o estopim e, de fato, o causador, desta enorme ... merda (desculpe, não achei outra palavra) que aconteceu ontem.

São mortes e mais mortes. Uma enormidade de famílias embasbacadas, frágeis, perdidas. Pior : perdidas em Manhattan. Porque Manhattan virou periferia. Escombros, sujeira, lojas fechadas, carros abandonados. Pessoas andando pra lá e pra cá como só vimos em outras transmissões broadcast quando filmavam os hutús, os iugoslavos, os libaneses. 11S é coisa única. Porque foi no centro.

E que me desculpem, mas é muita hipocrisia nas TVs, rádios e jornais. Após as primeiras horas com shows pirotécnicos, fogo, pessoas saltando no vazio e outras cheias de fuligem, a mídia não tinha novas cenas e passou pro estúdio, com comentaristas econômicos. " Porque o dólar sobe" , " Porque as exportações vão cair", "Porque são milhões de dólares perdidos pelas companhias aéreas" , "Porque as seguradoras..." "Porque os bancos fechados..." Muita hipocrisia. Da mais cruel e desumana. Da mais baixa, vil e antiquada.

11S será marcado como o dia estaca zero. Onde, ou tudo se transforma em espetáculo midiático ("o" espetáculo), ou então, e preferencialmente, as vidas passam a ser consideradas como o real valor. O dia que a economia humanizou-se. O dia que caiu a ficha. E o WTC.

Tudo isso que falo pode parecer hermético demais. Dúbio. Mas sejamos realistas. Choremos as milhares de mortes. E depois, logo depois, vamos à luta. Não me refiro a lutas bélicas nem à luta Gandhi-pacifismo das massas. Claro que não grito pela defesa dos revólveres em casa nem pela inóspita e banal unanimidade contra o terrorismo. Porque tudo isso é óbvio. Somos contra terroristas. Mas também somo contra várias outras coisas.

E esses jovens, os mesmos incógnitos jovens de Seatle, de Roma ; das teias da web ; os linus, os giulianis ; e os outros tantos antiheróis ; provocadores anônimos, sem causas massificadas ; somente buscadores de liberdade ; da pílula vermelha de Matrix ; os hackers, os filhos do próprio establishment ; esses jovens que como todo jovem é barbaramente contra as coisas ; que esses jovens mudem o mundo. E que isso doa pouco à humanidade.

Porque é melhor a esperança jovem por um futuro que desconhecemos do que o pessimismo e a insegurança doentia que os Q.I 91 irão propor dentro de poucos dias para a humanidade.

Porque prefiro dias de câo do que dias de caça. Porque sou Poliana temerário. E não quero pra minha filha um mundo-bunker. Quero a liberdade da informação, quero que tudo seja periferia sem centro, como a web interconectada e interdependente. Porque quero humanidade e não quero morte. Não quero a paz aparente. Não quero a segurança de um muro alto. Não quero a pseudo-conspiração. Não quero a antiquada dialética do bom e do mau. Quero a obviedade. A certeza. Quero o caminho.

Meu medo está na pílula azul matrixiana. Está na insistência burra dos que ficam na caverna de Platão. E nos velhos. Na grande guerra entre o velho e o novo. Meu medo tem medo que o velho ganhe. Mas minha utopia e a esperança de todos nós é mais bonita de se ver.

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Marcelo Estraviz (mailto:estrav@yahoo.com) é consultor de desenvolvimento institucional e coordenador de arquitetura da informação do projeto do governo do estado "Acessa São Paulo" (http://www.acessa.sp.gov.br) . Conselheiro da Ong Trópis, presidente da assoc. de ex-alunos do Colégio Miguel de Cervantes, co-autor do livro "Captação de diferentes recursos para organizações da sociedade civil". Você o encontra no seu blog: Tipuri (http://tipuri.blogspot.com)