» Opinião

Um motivo para a Alca
(Pedro Paulo Silveira Felicíssimo, 2003-01-06)

Geoffrey Barraclough, historiador inglês, em seu livro "História Moderna e Contemporânea", narra que o início da ascensão dos Estados Unidos como potência política e econômica mundial, coincide historicamente com o declínio do domínio econômico e político da Grã - Bretanha e do império colonial inglês em Ásia e África. ( denominado declínio da "Pax Brittanica") e cita três fatos geopolíticos da história norte-americana que corroboram esta relação:

Em primeiro lugar, a Guerra de Independência a qual permitiu a ampliação do horizonte geográfico e estratégico até a Ásia através do seguimento das batalhas navais entre ingleses e norte-americanos que se estenderam até o Oceano Pacífico. Este conhecimento geográfico mais detalhado por parte dos norte-americanos da costa oeste de seu país e da proximidade das rotas mercantis da Ásia, principalmente os mercados de Hong Kong e Shangai que até então eram monopólios comerciais europeus incorrerá então em uma mudança radical em sua política externa norte-americana a qual passará a apoiar os movimentos de independência política das colônias européias na Ásia e a adotar um discurso neocolonialista em prol de seus interesses comerciais e de hegemonia comercial.

Em segundo lugar a descoberta de ouro nos territórios da Califórnia e do Alaska que contribuiu para uma mudança no eixo de colonização que até então era centrado na costa leste do país, conseqüente aumento dos fluxos de emigração da Europa e Ásia para a América e acumulação de capital necessária para o "arranco" inicial de seu primeiro ciclo industrial que até então se desenvolvia apenas na Europa, este processo tendo como base à indústria de transportes ferroviários. A descoberta do ouro americano contribuiu também para uma inflação de preços no mercado europeu agravando ainda mais a crise provocada pelos movimentos de independência das colônias (vide Índia) e pelo declínio do modelo europeu de política colonialista e mercantilista baseado na acumulação de metais preciosos ("Pax Brittanica").

Em terceiro lugar a privatização das companhias de estradas de ferro inglesas que operavam nos EUA, permitiu a apreensão de uma malha ferroviária já existente e madura decretou o fim do ciclo hegemônico do capital inglês na América, com a queda acentuada das ações destas companhias nas principais bolsas européias, declínio das exportações de celulose e algodão e o aumento das tarifas de exportação dos produtos norte-americano para a Europa 

O novo domínio dos EUA como potência econômica ("Pax Americana") então se consolida e fortalece-se na elaboração de uma nova política comercial externa, cujo ápice principal da análise concentra-se na aquisição dos territórios do Novo México, Califórnia, Texas e Alasca e nas rotas comerciais do Pacífico.

Esta pequena análise histórica serve para ilustrar o porquê da política externa dos EUA privilegiar em seus interesses econômicos em décadas posteriores a Ásia em detrimento a uma política voltada à integração com o restante dos países do continente americano.

Esta política molda até hoje as decisões norte-americanas nos campos de estratégia comercial adotada em investimentos diretos, intervencionismo nos fóruns supranacionais ou na política de segurança. Constitui-se tradição na política externa de poder dos governos republicanos e é atenuada e motivo de questionamento na política externa de poder dos governos democratas dos EUA.

Ocorre hoje um amplo debate sobre a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, no imenso mercado que isto representa e no excesso de otimismo em relação à crise da economia mundial capitalista que se apresenta. Mais uma vez a ALCA nos apresenta de forma sombria, baseada na desigualdade social e econômica de seus futuros integrantes e no histórico tradicional da política comercial norte-americana.

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Pedro Paulo Silveira Felicíssimo,
economista e Consultor em Comércio Exterior.
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