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Um país refeito pelas redes econômicas globais
(Luis Fernando Novoa Garzon, 2002-09-01)

Mary Shelley escreveu em 1816 o livro "Frankenstein, ou o Prometeu Moderno". Nele, um médico, Dr. Victor Frankenstein, forja uma criatura a partir de restos cadavéricos. O organismo ganharia "vida" depois de fortes descargas elétricas. A parábola tem óbvias reverberações no campo da clonagem, da robótica e da inteligência artificial. Mas é no campo das relações econômicas internacionais, que ela pôde encontrar o seu terreno mais fértil.

Tangido pela crise econômica e acossado pelos EUA, o México se tornou objeto de uma experiência frankensteiniana e se transformou em uma admirável espécime de laboratório. Um exemplo de cobaia voluntária bem sucedida do projeto de integração global subordinada. No final, tornou-se alvo de atenções no hemisfério por estar desempenhando muito a contento o novo papel reservado às economias capitalistas subalternas no século XXI.

A metamorfose tem raízes na crise da dívida em 1982, transparece dramaticamente nos anos de desmonte e ajuste ao NAFTA a partir de 1994, e se concluí com o surgimento de um novo produto-país no ano de 2001.

Essa reestruturação, em forma de via crucis, tornou-se paradigmática especialmente para "nosotros" latino-americanos. Depois de eleito sob os auspícios da plutocracia e por sobre os restos mortais da democracia americana, George W. Bush escolheu o México para sua primeira visita oficial. Deixava explícito desse modo o quão prioritária e estratégica é a experiência mexicana para os planos dos grandes oligopólios norte-americanos. Ali, o atual Presidente mexicano, Vicente Fox, foi nomeado embaixador do Império tendo como missão promover a Área de Livre Comércio das Américas(ALCA) junto a seus pares latino-americanos.

Um exemplo mais que revelador dessa delegação é o Plano Puebla-Panamá/2001. O Governo Fox está negociando junto aos países da América Central um plano de integração comercial e de infra-estruturas que prevê a ampliação das redes de maquiladoras em direção ao Panamá. O projeto expansionista e privatista que as elites estadunidenses querem impor ao hemisfério, a Área de Livre Comércio das Américas, se enraiza no México como um chamariz e uma vitrine.

O México é o país latino-americano que mais tem atraído investimentos estrangeiros, e que tem tido o maior incremento de exportações, especialmente de produtos manufaturados e eletrônicos. Alardeia-se que nasceu um novo tigre latino-americano e os países restantes devem seguir suas pegadas. Se há estagnação e fuga de capitais na maioria dos países da América Latina, no México ocorre o contrário. Com o aval e proteção dos EUA, sob o arcabouço do Nafta, se tornou uma das opções mais rentáveis e estáveis para os investimentos privados. As agências avaliadoras de risco atestam que o produto-país é confiável e lucrativo.

Esses investimentos representam em parte a ocupação de nichos e mercados residuais(como o de telefonia celular e o de serviços financeiros) na economia mexicana, através de franquias e filiais. Trata-se da otimização das redes comerciais norte-americanas alongando e potencializando seu espectro de atuação. Isso não seria possível sem que se desmontassem cadeias produtivas nacionais antes protegidas e subsidiadas pelo Estado.

De onde então jorra a fonte da riqueza do novo México? Pistas surgem ao se analisar o comércio externo México-EUA. O primo pobre passava a exportar bens de consumo duráveis(eletrônicos especialmente) para o primo rico que, em troca, remetia semi-manufaturados e produtos intermediários(peças e componentes). É nessa balança comercial, aparentemente favorável, que se esconde o mais intenso comércio intra-firma do mundo, praticado pelas multinacionais americanas. Não foi por acaso que as maquiladoras tiveram como berço a fronteira norte, em cidades como Tijuana, Mexicali, Matamoros e Ciudad Juarez. 

Os atrativos são conhecidos: os trabalhadores mexicanos ganham 10 vezes menos e trabalham duas vezes mais que os norte-americanos, os impostos são reduzidos, a fiscalização é discreta e os lucros podem passear à vontade, com paradas obrigatórias nos paraísos fiscais do Caribe, antes de voltar ao sólido terreno pátrio. Era o que faltava para proporcionar grande competitividade às cadeias produtivas norte-americanas: maior descentralização geográfica da produção para áreas de baixo custo operacional e sob total previsibilidade e controle institucional.

O sucesso da economia mexicana correspondeu à disponibilização do seu território, com seus recursos naturais, suas estruturas econômicas e sua população, para um replanejamento unilateral por parte das empresas norte-americanas. Os fatores econômicos internos foram redesenhados como múltiplas áreas de enclave.

Os EUA querem compor um novo papel econômico para os países latino-americanos. Um papel que está muito além da "nova divisão internacional do trabalho", como se convencionou chamar o processo descentralização das multinacionais em direção à periferia a partir de 1950. A exemplo do México, esses países são chamados a se reterritorializar no interior de uma moldura transnacional onde existiriam apenas como esboços em uma tela arbitrariamente desenhada e redesenhada de acordo com as necessidades cambiantes e momentâneas do mercado.

As grandes redes econômicas norte-americanas pretendem criar um hemisfério à sua imagem e semelhança, ou seja uma mega-rede flexível que colecione as mais variadas habilidades e competitividades, os mais distintos fatores econômicos, isto é, conjuntos de mão-de-obra, reservas de matérias-primas, estruturas comerciais, industriais e financeiras e mercados.

Algo vivo por definição apresenta autonomia e animação. O que é um país então quando lhe retiram toda margem de autonomia e o convertem em um eficiente e previsível acessório das grandes redes econômicas globais? Uma máquina viva , uma nação geneticamente modificada, um protótipo de uma nova geração de países-andróides?

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Luis Fernando Novoa Garzon
, Sociólogo, mestre em Ciências Políticas pela UNICAMP, professor e membro da ATTAC-SP(Ação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos). Colaborador da Revista de Cultura Vozes, Cadernos do Terceiro Mundo, Caros Amigos e sites como EconomiaNet, Novae e Oficina de informações. Seus estudos e reflexões concentram-se no diagnóstico da crise global e na elaboração de alternativas frente a ela. 
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