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Argentina: O cemitério da globalização espanhola
(Silvia Chauvin e Jorge Nascimento Rodrigues, 2002-06-16)

O exemplo do investimento directo espanhol na última década na Argentina já foi eleito "case study" de como não se deve internacionalizar. Um especialista argentino traça a saga dos grupos empresariais de Espanha na "estrela" do Sul e aponta erros de palmatória.

Tendo partido de uma situação ideal e invejável de "acolhimento" na Argentina, segundo os manuais, em virtude da língua e história comuns, os principais grupos empresariais espanhóis revelaram alguns erros de palmatória, constatam agora os especialistas. Alguns deles inclusive granjearam rapidamente o lugar de inimigo público número um no coração da opinião pública argentina, apesar da Espanha continuar a ser local de eleição da emigração e não deixar de ser cortejada como destino de exportações.

Com o insucesso deste posicionamento de Espanha na "estrela" do Atlântico Sul de língua castelhana, é toda a União Europeia que perde pontos a favor dos ventos de "alcanização" (o projecto norte-americano para uma área de livre comércio) das Américas.

A corrida à "estrela" do Sul

A corrida espanhola teve um quinquénio de ouro. Só entre 1994 e 2000, a Espanha investiu directamente em termos líquidos na Argentina mais de 20 mil milhões de euros, segundo o Ministério de Economia do nosso país vizinho. Para os argentinos, o "stock" de capital espanhol terá alcançado em 2001 mais de 21 mil milhões de dólares, representando mais de 50% do "stock" de capital europeu investido na Argentina e 28,5% do "stock" total de investimento directo estrangeiro (IDE) neste país sul-americano.

Esta corrida deu-se num período em que a Argentina se revelou um dos países em desenvolvimento que atraiu mais fluxos de IDE de todo o mundo. Entre 1994 e 1999, a "estrela" do Sul ocupou o 4º lugar do "ranking" de maiores receptores de IDE no mundo em desenvolvimento, depois da China, Brasil e México. «Excluindo o México, a norte, que está de facto na esfera de investimento norte-americana, a Argentina era na América Latina e Caraíbas, o país mais interessante para Espanha», diz-nos Andrés López, 40 anos, doutorado pela Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Buenos Aires e investigador do Centro de Investigações para a Transformação (CENIT). Trata-se de um mercado de mais de 37 milhões de habitantes (número próximo da população espanhola que é superior a 39 milhões), fortemente urbanizado (90%) e alfabetizado (96%) e com uma tradição histórica de classe média.

Para este professor de desenvolvimento económico e autor de vários trabalhos científicos sobre a recente vaga de IDE , a década de 90 foi, também, «um período único na Argentina, excepcionalmente favorável ao IDE, em virtude do movimento de privatizações e da desregulamentação do sistema financeiro».

O pontapé de saída

De facto, o movimento estratégico dos grupos espanhóis tornou-se visível no princípio dos anos 90 do século passado. A privatização da ENTEL (a empresa estatal argentina de telefones), que foi ganha em 1990 pela Telefónica de Espanha, foi o pontapé de saída. A estratégia, então lançada pelo seu presidente, Luis Solana, foi, depois, "imitada" por outros grupos espanhóis.

O ano mágico viria a ser 1998, por coincidência um século depois do fim do ciclo da presença colonial da Coroa espanhola na América Hispânica saindo de Cuba. A viragem estratégica mediática da Telefónica de Espanha anunciando a sua "globalização" associando-se à hoje mal afamada WorldCom e à MCI, viria a marcar a aceleração de aquisições nos vários países latino-americanos durante o consulado de Juan Villalonga.

Foi em 1999 que se constatou nas estatísticas de IDE espanholas a grande viragem. A Espanha investiu na Argentina mais do que em toda a União Europeia naquele ano. Tornou-se no destino principal mobilizando então 36% do IDE espanhol, tendo atingido o valor anual máximo de 15,5 mil milhões de euros em termos líquidos. Este ano foi marcado pela aquisição de Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF, petrolífera estatal argentina) pela Repsol espanhola. Com o valor da compra estimado em 15,2 mil milhões de euros, não se sabe qual foi a parte em investimento directo.

Em quatro anos, entre 1998 e 2001, a Espanha passou de 10% do "stock" de IDE na Argentina para 28,5%, colocando-se mais próxima dos Estados Unidos, que detém a liderança (30,5%), e à frente do IDE que vem pela via dos paraísos fiscais (estimado em 13%). Acrescente-se que a Espanha ocupou durante dois anos consecutivos (1999 e 2000) o sexto lugar entre os principais investidores no mundo. Os bancos espanhóis como o então BBV (hoje BBVA) e o BSCH foram instrumentais nesta estratégia.

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