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Boas da Malásia*
(Marcelo Manzano, 03-01-2002)

Graças ao controle de capitais, a Malásia pôde retomar o crescimento econômico sem ter de comprometer outros fundamentos importantes de sua economia

Parafraseando aquele velho ditado inglês que diz “no news, good news”, hoje, em determinadas ocasiões, talvez seja mais apropriado dizer “good news, no news”. Digo isso pensando num episódio ressente do jornalismo econômico. Trata-se do curioso descaso da imprensa especializada, que, apesar de todo o aparato eletrônico que nos pluga ao mundo, conseguiu jogar para baixo do tapete a notável experiência de heterodoxia econômica da Malásia – aliás, eu só vim a saber do assunto lendo um improvável artigo no caderno de variedades de um jornal dedicado a temas do mundo econômico.

Longe dos holofotes, a Malásia, nossa velha companheira de farra, em rota de submersão, resolveu infringir as regras de boa conduta do FMI e cometeu o que há de mais herético no mundo das finanças internacionais: o controle de capitais. No olho do furacão, vendo o seu PIB sofrer uma queda de -7,4%, o primeiro-ministro malaio não teve dúvida, destituiu o ministro da economia e decretou que, a partir do dia 2 de setembro de 1998, estrangeiros estariam proibidos de retirar seus capitais do país.

Evidentemente, o homem foi taxado de louco, irresponsável, autoritário etc. Indignadas, as vigilantes agências de risco expurgaram a Malásia de seus caderninhos. “No more Malasia!”, praguejava, por certo, a turma do cassino.

Ledo e feliz engano. O sensato primeiro-ministro malaio acertou em cheio. Apesar do susto inicial, depois do retumbante “ninguém sai”, o país recuperou sua autonomia no manejo das políticas econômicas, antes confinadas ao campo de interesses dos capitais especulativos. Com a chave do canil no bolso, as autoridades malaias gozaram então do privilégio – tão raro nos dias de hoje – de poder baixar as taxas de juros e administrar a sua taxa de câmbio de acordo com as necessidades internas de sua economia. Em pouquíssimo tempo, não só a produção voltou a crescer, como o próprio controle de capitais pôde ser abrandado, através de um sistema que estabeleceu taxas sobre a saída de capitais que decresciam ao longo do tempo. E, quem diria, mesmo com um passado tão pouco convencional, o mais impressionante aconteceu: em menos de dois anos, a Malásia voltou a ser agraciada com a entrada líquida de capitais estrangeiros.

E aí? E as estrelinhas na caderneta?

Pois é, ninguém quis falar muito sobre esse arrogante pupilo da turma do fundão. Disseram que o mundo melhorou, que, assim como a Malásia, outros mais bem comportados também foram bem-sucedidos etc. etc.

Acontece que, ao contrário dos outros, graças ao controle de capitais, a Malásia pôde retomar o crescimento econômico sem ter de comprometer outros fundamentos importantes de sua economia. Desobrigada de disputar a juros os aflitos capitais internacionais, a Malásia teve o êxito de escapar da ciranda viciada que empurra economias “emergentes” a se endividarem cada vez mais, quanto menores forem as suas condições de saldar seus compromissos externos.

Aliás, é interessante comparar a experiência da Malásia com o caso também exemplar, porém antípoda, de nossa vizinha de Mercosul. Sentada da primeira fila, a Argentina seguiu como ninguém a batuta do FMI e hoje se encontra inerte no aguardo da extrema-unção. Depois de inúmeros pacotes, de pesados ajustes econômicos, com redução de salários, redução dos gastos públicos, ampliação do desemprego, e um tanto de outras mazelas, a Argentina é a filha escarrada do engodo neoliberal. Apesar de não ter enfrentado uma crise aguda como a malaia, a Argentina não foi capaz de sair do limbo em que se meteu. Contou com empréstimos “salvadores” do FMI e do Banco Mundial, contou com o pacto “solidário” dos bancos domésticos, mas hoje, mais do que ontem, e menos do que amanhã, segue encalacrada sem ter como escapar.

Curiosamente, até outro dia, o ministro Cavallo lotava os salões brasileiros para falar de suas peripécias. Quanto ao primeiro-ministro malaio, pago um doce para quem souber o nome!

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Marcelo Manzano
é economista. E-mail: manzano.m@uol.com.br
* artigo publicado originalmente na revista Caros Amigos. Publicação autorizada pelo autor

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