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Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós
(Rafael Wally, 2002-04-18)

O século XX conseguiu algumas proezas desconcertantes que serão vergonha para a humanidade até o fim dos tempos. Do holocausto à bipolarização da guerra-fria, da fome de metade do mundo ao registro preciso do humano nº 6.000.000.000. São acontecimentos e desdobramentos que mudaram o curso da história e continuarão a influenciar o andamento das coisas. A transformação do conhecimento em mercadoria é um destes acontecimentos. Certamente um dos piores, por não ser factual.

Fotos de câmaras de gás chocam qualquer um que tenha sangue nas veias e possa compreender o significado da existência destes locais durante o Holocausto. Para uma pessoa sem escolaridade, que não teve acesso ao conhecimento, talvez não signifique nada. Uma foto de uma criança faminta nos braços de uma mãe magra no meio da África ou numa favela em qualquer cidade brasileira choca mesmo aqueles que não sabem ler.

Porém, alfabetizado ou não, doutor ou vendedor ambulante, não há uma única imagem que possa registrar o que significa cobrar pelo acesso à informação. Informação gera conhecimento. Falta dela mantém a ignorância. O resultado podemos ver diariamente nas ruas, nas favelas, na exploração regional, nos mercados comuns, nos fenômentos de massa, nas guerras.

Informação versus Conhecimento

Sem consultar a dicionários, diferencio aqui o que chamo de informação e o que chamo de conhecimento. Informação é tudo aquilo que existe, acontece, pode ser transformado em dado, em estatística, em notícia. Conhecimento é aquilo que não é expressado senão através de um raciocínio.

Dizer que uma enchente inundou bairros em São Paulo é transmitir uma informação. Entender porque a enchente inunda regiões populosas é utilizar o conhecimento. Sabe-se que o açoreamento dos rios, o desvio de seus cursos naturais, a impermeabilização do solo, a ocupação de regiões de mananciais, a sobrecarga de peso sobre o solo, a exploração de lençóis freáticos, o desmatamento, entre outros muitos fatores, levam a enchentes cada vez mais catastróficas. A compreenção da interação entre estes fatores isoladamente é o conhecimento.

Informação e conhecimento não são campos distintos, mas conceitualmente é importante diferenciá-los, pelo menos até que se possa compreender o quão complexo é viver num mundo onde a informação é monetizada.

A estatística da ignorância

O mito popular de que a humanidade gerou no século XX mais conhecimento do que em toda sua existência é mais uma das milhares de distorções diárias que a mídia contemporânea cria afim de moldar um mundo mítico no qual se possa viver abobalhado pela novidade e pela tecnologia.

Sem dúvida, a capacidade de gerar e guardar informação cresceu em escala geométrica nas últimas décadas, com a popularização do Computador Pessoal e o surgimento de grandes centros de armazenagem de informação, públicos, privados e principalemente governamentais. A internet, hoje com 7 anos (comercialmente e disponível para o grande público mundialmente), se tornou um artifício capaz de transmitir informação em tempo real para os mais remotos fins de mundo da Terra.

Muitos emissores, ainda mais leitores

É justamente neste momento que a geração de informações através da internet se torna uma alternativa para quem quer divulgar informação isenta. O jornal, a televisão, o rádio, perdem aqui a exclusividade como geradores de informação. Qualquer pessoa pode ser um emissor de informações.

Além de botar abaixo quase toda a Teoria da Comunicação [ emissor > intermediário > receptor ] , a possibilidade de gerar notícia, cruzar informações velhas e novas e gerar conhecimento é acessível aos mais simples mortais, desde que possam transformar suas idéias num arquivo digitalmente compreensível e colocá-lo na web. A troca de conhecimento, o debate de idéias, o simples fato de pensar o novo em conjunto é o que fascina dentro desse mar de informação. E melhor: fazer isso sem cobrar.

Seja por prazer, por reputação (vide texto do Hernani Dimantas, Marketing Macker), por interesse ou por qualquer outra motivação, ler, produzir e distribuir informação livre é a tônica da comunicação online atual.

Por mais elitista que ainda seja, por mais complicado (e caro) que seja utilizar a internet, por mais que ainda sejam apenas 10% da população mundial a utilizá-la frequentemente, a internet tem um papel a ser desempenhado que só depende do engajamento e da cultura formada dentro dela mesma.

Não são poucos os indícios de que uma grande parte da população não quer mais pagar para ter acesso à informação, e movimentos ainda pouco abrangentes surgem para tentar organizar e direcionar esforços.

Podemos escolher: fazer parte da revolução ou ignorá-la. O preço a se pagar por ambas as escolhas a gente discute daqui alguns anos, quando a liberdade chegar.

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Leonardo Silvino Rafael Wally  put@grito.com.br
Designer do EPTV.com, 22 anos, foi Diretor Regional (Campinas-SP) da PROMIT. Graduando em Arquitetura e Urbanismo pela Unicamp, escreve para o Grito, VIRAweb, Opinativa e Design.inf.br.
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